Sertão Central   Pirangi   Ibaretama CE 03

Do literário ao teatral: EMIAM em cena com Morte e vida severina

Jan-Abr 2020
Marcela Horta

Marcela Caroline Albuquerque Horta

Professora de Língua Portuguesa da rede municipal de educação de Belo Horizonte. Especialista em Educação Especial no Ensino de Alunos com Deficiência Auditiva. Especialista em Tradução e Interpretação e Docência em Libras.

E-mail: mcas.albuquerque@gmail.com

Cristina Cardoso

Cristina de Lima Cardoso

Professora de Artes da rede municipal de educação de Belo Horizonte. Especialista em Ensino de Artes Visuais e Tecnologias Contemporâneas.

E-mail: crislcbh@hotmail.com

INTRODUÇÃO 

Este projeto foi desenvolvido na Escola Municipal Ignácio de Andrade Melo (EMIAM), localizada na Regional Pampulha, no bairro São José, com alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, no ano de 2018. Inicialmente, propôs-se a leitura e a interpretação da obra literária “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto, indicada para as provas do Colégio Técnico da UFMG (Coltec/UFMG), no ano de 2018, o que ganhou força com o entusiasmo dos alunos motivados para os colégios técnicos. Esse entusiasmo só foi possível a partir do momento em que eles sentiram que poderiam pertencer àquele Colégio, que aquela não era uma realidade fora de alcance. Essa nova perspectiva ocorreu graças a uma visita que foi realizada até o Coltec, durante uma semana de visitação e apreciação dos projetos e trabalhos que eram realizados ali por seus estudantes. Assim, o projeto cresceu e culminou em pequenas apresentações teatrais, organizadas e encenadas pelos alunos do EMIAM durante três meses, sendo realizadas atividades literárias e artísticas, com o apoio dos professores, coordenadores, auxiliares de inclusão e direção.

Considera-se esta uma proposta efetiva de trabalho no contexto da educação básica, uma vez que vai ao encontro de uma das competências gerais indicada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), em que se preza por valorizar e fazer fruir as “diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural” (p.07), para ampliar o aparato cultural dos alunos. Além disso, o projeto permitiu aos alunos: conhecer o escritor João Cabral de Melo Neto; conhecer e entender a obra “Morte e vida Severina”; compreender as mazelas de uma população sofrida por causa da seca e envolta com as diversas causas sociais; desenvolver habilidades relacionadas à prática da oralidade; desenvolver as habilidades manuais e artísticas, assim como as de expressividade, postura e desenvolvimento corporal.

REFERENCIAL TEÓRICO

Compreende-se a sala de aula como um “espaço-tempo de criação teatral, onde a imaginação, o corpo e a ação dos alunos estejam integrados na construção de novos saberes e competências expressivas” (FERREIRA, 2012, p.11). Assim, parte do processo de humanização é o ato de “ver-se em ação, criticando e apreciando os próprios gestos e atitudes” (SANTANA, 2009, p. 30). O “ver-se em ação” é colocar o aluno como protagonista no seu processo de aprendizado, em que terá de analisar criticamente suas escolhas e atitudes. Enquanto protagonista, o aluno tende a ser um “agente ativo e participativo do processo da sua aprendizagem e o professor é visto enquanto agente na mediação entre o aluno e a busca por novos conhecimentos” (DAHER, 2017, p.5). Nesse sentido, a escola deve propor práticas em que o aluno passe a ser protagonista do seu aprendizado e inserido em situações reais, incluídas as de uso da língua.

É neste ponto que nos apropriamos do conceito de retextualização, em que

retextualizar (…) envolve a produção de um novo texto a partir de um ou mais textos-base, o que significa que o sujeito trabalha sobre as estratégias linguísticas, textuais e discursivas identificadas no texto-base para, então, projetá-las, tendo em vista uma nova situação de interação, portanto, um novo enquadre e um novo quadro de referência. A atividade de retextualização envolve, dessa perspectiva, tanto realizações entre gêneros e textos (…) – quanto as relações entre discursos (MATENCIO, 2003, P.3-4, apud RIBEIRO, 2016, p. 20).

Assim, ao propor uma atividade de encenação teatral, espera-se atender, também, aos pressupostos da prática da oralidade, apresentados nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN’s), baseada no conceito de retextualização, em que um gênero é reinventado, passa por uma releitura, transformando-se em um novo gênero discursivo, mas, no caso em questão, passa-se da modalidade escrita para a oral, do imaginário para a encenação. Esse processo de encenação ajuda os alunos a conhecerem melhor a obra, as características das personagens, o contexto da história, as problemáticas sociais que a permeiam, contribuindo para o momento de realização das questões literária da prova do colégio técnico.

Os PCN’s abordam a prática da oralidade, em um de seus eixos de ensino, justamente para que esta ganhe mais espaço nas ações escolares, visto que ainda é uma prática negligenciada. Por exigir um “planejamento prévio da fala em função da intencionalidade do locutor, das características do receptor, das exigências da situação e dos objetivos estabelecidos”, a oralidade tende a ficar esquecida (BRASIL, 1998, p.58). Esse planejamento prévio deve ocorrer, principalmente, ao se propor a transição do texto escrito para o oral, pois essa transição passa a ser essencial na atividade de encenação teatral, em que o contexto de produção e recepção pode determinar as escolhas dos sujeitos/alunos/atores. Caso contrário, o potencial do texto, assim como o dos agentes envolvidos, não é plenamente explorado.

Nesse contexto também, a BNCC (BRASIL, 2017, p. 209), ao abordar as competências e habilidades associadas à disciplina de Artes, no item Teatro, afirma a necessidade de “explorar diferentes elementos envolvidos na composição dos acontecimentos cênicos (figurinos, adereços, cenário, iluminação e sonoplastia) e reconhecer seus vocabulários”. Dessa forma, o aluno será capaz de perceber o seu papel em cada “acontecimento cênico”, do preparo da peça até o instante de sua encenação. Além disso, a BNCC traz a necessidade de se pensar no processo de criação teatral, experimentando a “gestualidade e as construções corporais e vocais de maneira imaginativa na improvisação teatral e no jogo cênico”. Esse ponto passa a ser importante para preparar o aluno às diferentes maneiras de se comunicar e de se portar, necessárias em cada contexto social e comunicativo que estará inserido O professor deverá, portanto, introduzir e trabalhar questões relacionadas à expressividade corporal, facial e ao posicionamento de/no palco.

Figura 1: Objetos para cenário
Fonte: arquivo pessoal

A CULMINÂNCIA DO PROJETO

Este projeto teve como objetivos principais: realizar a leitura e a interpretação da obra “Morte e vida Severina”, conhecer o autor João Cabral de Melo Neto e preparar os estudantes para a prova interdisciplinar do Coltec/UFMG. Como objetivos secundários realizou-se o estudo das práticas ligadas ao teatro, tais como posicionamento em palco, figurino, cenário, postura corporal e vocal. Estudou-se, também, adaptações, releituras – da obra de João Cabral para a animação – e técnicas de elaboração de cenário e figurino teatral.

Metodologicamente, optou-se por iniciar com o estudo da vida e da obra de João Cabral de Melo Neto e com leitura coletiva e discussão com os estudantes da obra “Morte e Vida Severina”. Em seguida, realizou-se a exibição da animação em 3D, adaptada pelo cartunista Miguel Falcão, da obra estudada. Na terceira etapa, realizou-se a organização das turmas em grupos de trabalho, a escolha das cenas a serem apresentadas, a confecção de cenário, figurino e convite para a peça, além dos ensaios. Por fim, efetivou-se a apresentação de pequenos atos, nas duas turmas participantes, com a presença de um representante de cada setor da escola, oficialmente convidados para prestigiar as peças.

Vale ressaltar que todo o material utilizado durante a peça foi confeccionado pelos estudantes, em sala de aula, sendo utilizados para isso os horários das aulas das disciplinas de Língua Portuguesa, Artes, Ciências, História e Geografia, uma vez que era inviável a presença dos estudantes no contraturno para a realização dessas atividades. O figurino ficou, também, em responsabilidade dos estudantes, sendo que poderiam utilizar vestimentas trazidas de casa para compor os personagens.

Destaca-se ainda que a atividade contou com a presença de um aluno de inclusão, com dificuldades de locomoção, o qual participou ativamente das atividades de confecção de cenários, elaboração do roteiro da cena escolhida, e, lógico, da encenação como um personagem da história de João Cabral de Melo Neto. Esse último ponto foi, inicialmente, uma exigência das professoras, pois a turma precisava promover a inclusão do aluno na atividade proposta. Para surpresa e contentamento dos professores envolvidos nesta ação, a receptividade dos colegas foi excelente, percebeu-se a preocupação em adaptar o trecho encenado para que o aluno de inclusão pudesse realmente ser um ator em cena.

No dia marcado para a apresentação dos pequenos atos, os alunos organizaram as salas de aula, uma vez que a escola não disponibiliza de um teatro e a quadra poliesportiva estaria em uso para outra atividade, decoraram o ambiente com os objetos confeccionados e realizaram a produção das maquiagens e trocas de roupa para a apresentação final.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como resultado deste projeto foi possível perceber um alto grau de envolvimento dos estudantes, professores, coordenadores, direção, auxiliares de inclusão e demais funcionários para que os alunos tivessem todo o suporte material para a concretização das apresentações. Presenciaram-se momentos em que os estudantes recitavam trechos do livro, em situações cotidianas da escola, tais quais os momentos em que ficavam nos corredores da escola durante a troca de professores pra a próxima aula e nos momentos de recreio e saída da escola, demonstrando compreensão dos aspectos literários da obra. Foi possível proporcionar a inclusão de estudantes com perfis diferenciados em uma atividade coletiva, favorecendo o trabalho em equipe, o espírito participativo e de responsabilidade.

Ao final do projeto, poucos estudantes realizaram a inscrição para a prova do Coltec/UFMG, muitos não o fizeram por questões financeiras e/ou por falta de apoio da família. Contudo, pode-se afirmar que o ganho para estes participantes foi positivo. Em vista do contexto sociocultural ao qual estão inseridos – estudantes de escola pública, na periferia, em uma região com altos índices de violência, com histórias de vidas que nos sensibilizam aos problemas sociais que enfrentam –  e mesmo assim houve o trabalho com algumas habilidades, tais quais organização, trabalho em equipe, senso de responsabilidade e compromisso, dedicação. O Projeto “EMIAM em cena: Morte e vida Severina” terminou com um saldo positivo das atividades realizadas, pois, além da função didática, esse trabalho despertou o interesse dos demais alunos da escola pela realização de uma atividade teatral a partir da leitura de uma obra literária, sendo, portanto, um motivador para futuros projetos desta natureza na “EMIAM em cena”.

 

Referências

 BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Disponível em < http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf>.  Acesso em 29 out. 2019.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: arte. Brasília: MEC/SEF, 1997.

DAHER, Alessandra Ferreira Beker. Aluno e professor: protagonistas do processo de aprendizagem. Disponível em <http://www.campogrande.ms.gov.br/semed/wp-content/uploads/sites/5/2017/03/817alunoeprofessor.pdf>. Acesso em 29 out. 2019.

FERREIRA, Taís. Teatro e dança nos anos iniciais. Porto Alegre: Mediação, 2012. 136 p.

NETO, João Cabral de Melo. Morte e vida severina. Disponível em <http://bibliotecadigital.puc-campinas.edu.br/services/e-books/Joao%20Cabral%20de%
20Melo%20Neto.pdf>.  Acesso em set. 2018.

RIBEIRO, Ana Elisa. Textos multimodais: leitura e produção. São Paulo: Parábola Editorial, 2016.

SANTANA, Arão N. Paranaguá. Metodologias contemporâneas do ensino de teatro: em foco a sala de aula. In.: FLORENTINO, Adilson; TELLES, Narciso. (Orgs.) Cartografias do ensino do teatro. Uberlândia: EDUFU, 2009.

Imagem de destaque: From Wikimedia Commons

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *