Capoeira2

Uma aula de pernas para o ar: Reflexões sobre ensinar e aprender Capoeira nas aulas de Educação Física

Out - Dez / 2016
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Admir Soares de Almeida Junior

Licenciado em Educação Física pela EEFFTO/UFMG, Especialista em Educação Física Escolar pela PUC-Minas, Especialista em Lazer pela EEFFTO/UFMG, Mestre em Educação pela PUC-Minas e Doutor em Educação pela FE/UNICAMP. Por mais de 20 anos atuou como professor de Educação Física em escolas da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. No momento é docente do Departamento de Educação Física da EEFFTO/UFMG e coordena o subprojeto de Educação Física do PIBID FAE/UFMG.

E-mail: admir.almeidajunior@gmail.com

ALGUMAS PALAVRAS INICIAIS

Sou professor de educação física. Conclui minha licenciatura no ano de 1992. Ao longo de minha prática profissional, atuei por 22 anos como docente dessa disciplina em escolas na Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte. Nesse período, utilizei diferentes formas de registros de minha prática pedagógica.

Nos últimos cinco anos, em função do meu doutoramento e da inserção no Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada (GEPEC) da Faculdade de Educação da UNICAMP, tenho buscado incorporar à minha prática docente, seja ela no ensino superior, seja na educação básica, a produção de textos autobiográficos que, de algum modo, tematizem e permitam uma reflexão individual e coletiva sobre minha prática docente.[1]

Meu convívio no GEPEC possibilitou entender que a narrativa é uma dimensão fundamental da comunicação humana e de atribuição de significado ao mundo. Para Larossa, (2004),

El ser humano es un ser que se interpreta y, para esa autointerpretación, utiliza fundamentalmente formas narrativas. (…) y ese particular y casi omnipresente género discursivo que es la narrativa. De hecho, el sentido de lo que somos o, mejor aún, el sentido de quién somos, tanto para nosotros mismos como para los otros, depende de las historias que contamos y que nos contamos y, em particular, de aquellas construcciones narrativas em lãs que cada uno de nosotros es, a la vez, el autor, el narrador y el carácter principal, es decir, de las autobiografias, autonarraciones o historias personales (2004, p. 12-13).

Para Benjamin (1994), a narrativa encontra-se intimamente relacionada ao ato de rememorar e à possibilidade de ressignificar a própria experiência por meio de memórias repletas de significados, sentimentos e sonhos. O ato de rememorar possibilita que dimensões pessoais – fundamentalmente a experiência – que vêm sendo perdidas no contexto da sociedade moderna possam ser recuperadas numa trama temporal que articula passado, presente e futuro.

Neste texto, baseando-me em Botía (2002), compreendo a narrativa como a qualidade estruturada da experiência entendida como um relato que se constitui em formas de produzir sentido a partir de ações pessoais, em determinado contexto de tempo e espaço, por meio da descrição e análise de dados biográficos. A narrativa constitui-se, então, numa forma particular de reconstrução da experiência, pela qual, mediante um processo de reflexão, dá-se significado ao acontecido ou vivido.

Nesse sentido, busquei retomar uma narrativa elaborada por mim em que narro uma experiência de planejamento e ensino de capoeira para e com estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental, realizada no ano de 2001, momento em que lecionava a disciplina de Educação Física em uma escola da Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte.

UMA AULA DE PERNAS PARA O AR

No ano de 2002 atuei como professor de educação física nos turnos da manhã e tarde na Escola Municipal Professor Moacyr Andrade. Na ocasião, trabalhei com turmas de 1º e 3º ciclos de formação. No primeiro semestre, no período da manhã, estava desenvolvendo o tema Lutas, mais precisamente a Capoeira, com os alunos/as do 3º ciclo. Já no turno da tarde, estava desenvolvendo com os alunos do 1º ciclo o tema Jogos, Brinquedos e Brincadeiras, mais especificamente jogos de “pega-pega”.

Um dia, quando chegava à escola para iniciar as aulas do turno da tarde, fui abordado por Pedro, um aluno de uma das turmas do 1º ciclo, que me lançou a seguinte pergunta:

– Oi, profe! É verdade que você tá dando capoeira de manhã? Quando você vai começar a dar capoeira pra gente?

De pronto respondi:

– Oi Pedro! Boa tarde! Por que você está perguntando isso? Não se lembra que combinamos que nesse período vamos brincar de pegador? Além disso, como você sabe que estou trabalhando com a capoeira no turno da manhã?

– Ah, profe! Você esqueceu que o Thiago é meu irmão? Ele me falou na hora do almoço. Por que você só dá capoeira de manhã? Por que nós não podemos fazer também?

Nesse momento, outras crianças perceberam o diálogo iniciado no meio do pátio central da escola e se aproximaram. Quase que instantaneamente elas se uniram, em coro, ao pedido de Pedro:

– Vai, Admir, dá capoeira pra gente também!

Para me ver livre, ainda que momentaneamente, daquele “levante”, respondi positivamente.

– Tudo bem! A partir da próxima semana nós iremos fazer algumas aulas de capoeira!

As crianças saíram em disparada em direção às filas de suas respectivas turmas. A noticia se espalhou pela escola de tal forma que, ao longo das aulas, várias crianças me perguntavam quando teriam inicio e como seriam as aulas de capoeira.

Voltei para casa bastante preocupado. Explico: o trabalho desenvolvido com a capoeira com os alunos do 3º ciclo pela manhã havia contado com a colaboração de um professor e de seus alunos. Ao longo de meu curso de graduação, não tive a oportunidade de experimentar ou vivenciar a capoeira. Dessa forma, como era a primeira vez que trabalharia essa prática corporal em minhas aulas, achei por bem solicitar o auxilio do professor Éder. Procurei realizar uma mediação e articulação entre as atividades apresentadas pelo professor e seus alunos com o tema das aulas de Educação Física. Além disso, aproveitei as aulas para aprender um pouco alguns dos movimentos da capoeira.

Apesar de considerar as atividades desenvolvidas no turno da manhã muito interessantes, julgava que as aulas para os alunos/as do 1º ciclo deveriam ter um enredo diferente. Mas qual? Naquele momento não me considerava apto a elaborar um conjunto de aulas para as crianças. Tão logo cheguei em casa, telefonei para o professor Éder e coloquei-o a par da situação. Fiz um novo convite para que ele retornasse à escola e desenvolvesse algumas atividades com os alunos/as do 1º ciclo. Entretanto, o professor informou não ter disponibilidade para uma nova visita à escola.

Ao perceber que me restavam poucos dias, resolvi buscar informações sobre a capoeira que pudessem auxiliar-me no processo de planejamento e elaboração das aulas. Pesquisei vários “sites” na internet. “Baixei” alguns vídeos com as “movimentações básicas”, os “fundamentos” da Capoeira Regional e da Capoeira Angola. Comprei alguns CDs e revistas de capoeira em bancas de jornal. Munido de todo esse “arsenal”, lancei-me ao desafio de planejar algumas aulas.

Inicialmente, elaborei duas aulas para a semana seguinte. Busquei aproximar a capoeira do tema que até o momento estava desenvolvendo com os alunos/as, isto é; os jogos e brincadeiras de “pega-pega” e, ao mesmo tempo, apresentar e ensinar as crianças alguns dos principais movimentos corporais da capoeira. Planejei brincadeiras de pega-pega que utilizariam os movimentos “típicos” da capoeira. Uma atividade em especial me chamou atenção: O pegador de “Pique-Cola” com Capoeira! O enredo era o seguinte: ao ser “colada” a criança deveria ficar agachada e só poderia voltar a brincadeira se um de seus colegas a “salvasse”. Para tanto, ele deveria executar um movimento da capoeira indicado anteriormente por mim, a saber: a ginga, o aú, a negativa, a meia-lua, entre outros.

Segunda-feira. Treze horas. Tão logo cheguei, à escola fui abordado por Pedro e outros meninos e meninas que faziam questão de me lembrar:

– Oi, profe! É hoje que começa a capoeira, heim?!

Acenei afirmativamente para eles e me dirigi à sala dos professores. Lá peguei um CD Player portátil e fui em direção à sala 12, coincidentemente a turma de Pedro. Fui saudado calorosamente pelas crianças, que se mostravam muito ansiosas para o inicio das aulas de capoeira.

No trajeto até a quadra, algumas perguntas instalaram novamente em mim uma sensação de preocupação com o que poderia vir a acontecer na aula:

– Admir, você trouxe o  berimbau?

– Admir, você trouxe o caxixi?

 – Profe, você saber tocar berimbau? E pandeiro?

Chegando à quadra, as perguntas se avolumaram:

– Profe, cadê o berimbau?

– Profe, cadê o caxixi?

– Admir, como vamos fazer capoeira sem música? Cadê o atabaque?

Já bastante inseguro, procurei tomar conta da situação:

– Pessoal! Pessoal! O berimbau, o caxixi, o atabaque e o pandeiro estão aqui dentro!

– Onde, profe?

Apontei para o CD Player e afirmei:

– Ora, aqui! Estão aqui dentro!

As crianças lançaram olhares surpresos para mim. Aproveitando esse momento, disse a elas:

– Vamos começar a aula de capoeira! Quero que todos vocês sentem daquele lado da quadra enquanto eu ligo o som. Assim que a música começar quero que todos venham até o centro da quadra e façam uma grande roda! Mas só quando a música começar, certo?

A agitação era enorme! As crianças procuravam atender rapidamente ao meu pedido. Subitamente o silêncio tomou conta da quadra. Apesar de estar em parte de costas para a turma, pude perceber que quase todas as crianças acompanhavam atentamente meus movimentos. Liguei o CD Player. Peguei o CD de capoeira e coloquei no aparelho de som. Selecionei as músicas. Tão logo a música tomou conta do ambiente da quadra fui novamente surpreendido.

Todas as crianças haviam se levantado e, como havia solicitado, foram até o centro da quadra. Entretanto, muitas delas já executavam os movimentos de aú, ginga, meia-lua, negativa e outros que eu desconhecia. Fiquei sem ação! Em poucos minutos as crianças estavam realizando todos os movimentos que eu esperava ensinar a elas ao longo de duas aulas! O que fazer?

De repente, Pedro se aproxima e me convida:

– Vem, profe! Vem jogar com a gente!

Aceitei o convite. Resolvi naquele momento experimentar a sensação de ver o mundo (e a aula) de ponta a cabeça! De pernas para o ar…

ALGUMAS REFLEXÕES INICIAIS

A narrativa elaborada por mim possibilita uma discussão acerca da especificidade da prática pedagógica da Educação Física. Para isso, penso ser necessário retomar as contribuições de Bracht (1997). Neste texto, o autor produz uma instigante reflexão sobre o objeto de ensino da Educação Física. O que significa considerar a cultura corporal de movimento como objeto de ensino da educação física? Quais as implicações para a prática pedagógica de professores de Educação Física nas escolas? Nessa perspectiva, o movimentar-se é entendido como uma forma de comunicação com o mundo como uma forma de linguagem.

Ao rever a experiência vivida por mim ao longo do processo de planejamento da aula de capoeira e buscar compreender como se deu, naquele contexto, o processo de construção e mobilização de saberes (docente e discentes), surpreendo-me com o modo como planejei e organizei as situações de aprendizagem. Ainda que tivesse certeza de que deveria apresentar aos alunos a capoeira como uma manifestação da cultura corporal de movimento e, portanto, contextualizá-la, percebo que inicialmente imaginei que ensinar tal prática corporal aos alunos era fazê-los aprender os “movimentos básicos” ou “fundamentos”, para depois poderem jogar a capoeira. Em decorrência dessa constatação, um questionamento sobreveio: porque planejei as aulas inicias de capoeira daquela forma?

Encontrei alguns indícios. Inicialmente penso que foi desafiante ensinar uma prática corporal que, naquele momento, era desconhecida por mim. Em meu curso de licenciatura (formação inicial) tive acesso a apenas uma modalidade de luta – o judô – e em minha prática profissional aquela era a primeira vez que me envolvia com o ensino de lutas nas aulas. Ainda que buscasse apropriar e materializar em minha prática pedagógica os pressupostos teóricos e metodológicos das abordagens críticas da educação física brasileira, no momento de sistematizar algumas atividades de capoeira, lancei mão de uma estratégia muito similar às propostas analíticas de ensino de práticas corporais.

Outro indício: percebi que, mesmo conhecendo os educandos há mais de um ano, ao considerar a capoeira como um conteúdo de ensino da cultura corporal de movimento, desconsiderei a dimensão local da cultura assimilada e / ou reinventada pelos seus sujeitos. Ou seja, reafirmei um trato pedagógico da capoeira, sem pensar concretamente nos educandos, em suas dinâmicas culturais, em seus saberes sobre a capoeira. Dessa forma, penso ser correto afirmar que foram os alunos – na sua condição de sujeitos – que receberam e apropriaram-se de minhas intervenções a partir de seu campo de experiências e de suas trajetórias. Foram esses alunos que mobilizaram em mim a produção de novos saberes sobre o ensino da capoeira. Relendo a narrativa, fica claro que não são apenas conteúdos específicos de ensino da educação física – no caso a capoeira – mas os alunos e as demandas que deles emergem que possibilitaram interrogar minha prática naquele momento.

Por fim, acredito ser relevante destacar a necessidade de constituirmos um diálogo com diferentes saberes e expressões de distintos campos de conhecimento que também podem possibilitar uma ampliação da compreensão da capoeira como prática corporal. Ao longo de minha trajetória docente, percebi que a capoeira não é apenas mais um conteúdo da cultura corporal de movimento a ser apresentado aos estudantes como pensava à época da aula descrita na narrativa. Aos poucos, fui percebendo que a capoeira é uma prática social vinculada a um conjunto maior de práticas relacionadas à tradição e ancestralidade das culturas afro-brasileiras, ou, como bem lembrou um dia o saudoso Mestre Pastinha: a capoeira é “mandinga de escravo em ânsia de liberdade”. Compreendi que tematizar a capoeira como manifestação da cultura corporal de movimento demanda a assunção de uma “pedagogia do segredo” que rompe com uma lógica, por vezes, linear e etapista de ensino.

 

REFERÊNCIAS

BOTÍA, A. B. “¿De nobis ipsis silemus?”: Epistemología de La investigación biográfico-narrativa em educación. Revista Electrónica de Investigación Educativa, vol. 4, n. 1, 2002. Disponível em: <http://redie.uabc.mx/vol4no1/contenido-bolivar.html>. Acesso em: 15 ago. 2016.

BRACHT, V. A prática pedagógica da Educação Física: conhecimento e especificidade. In: Educação Física e Ciência: cenas de um casamento (in)feliz. Ijuí: Ed. Unijuí, 1999. p. 41-48.

BENJAMIN, W. Obras Escolhidas I – Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. 7ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1994.

LARROSA, J. Notas sobre Narrativa e Identidade. In: ABRAHÃO, M. H. M. B. (Org.). A aventura (auto)biográfica: teoria e empiria. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2004.

PRADO, G. V. T.; SERÓDIO, L. A; PROENÇA, H. H. D. M.; RODRIGUES, N. C. Metodologia Narrativa de pesquisa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana. São Carlos: Pedro e João Editores, 2015. 213p.

[1] Devo ressaltar, entretanto, que, em função das condições objetivas de produção dessas narrativas, os textos produzidos por docentes expressam seu pertencimento e inserção em um contexto social específico, sobretudo no âmbito das escolas da Educação Básica, que dificulta, limita e constrange o processo de produção de textos autobiográficos pelos docentes.

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