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O professor do atendimento educacional especializado e as tecnologias assistivas para a deficiência física/neuromotora

Abr-Jun-2018
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Bahniuk Louisy Raianny Gabardo

Pedagoga formada pela Universidade Federal do Paraná. Foi professora da Educação Infantil na rede municipal de educação de Curitiba e atualmente é professora do ensino fundamental da rede municipal de Curitiba.

raianny_louisy@hotmail.com

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Nelly Narcizo de Souza

Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal do Paraná (2004), Especialização em Neuropsicologia (2005), pela Faculdade Dom Bosco, Especialização em Educação Especial (IBPEX), mestrado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (2008), doutorado em Educação pela Universidade Federal do Paraná (2013). Possui experiência como professora de Educação Especial e Inclusiva, trabalhou como Pedagoga de Apoio à Inclusão Educacional e à Avaliação Psicoeducacional, na Rede Municipal de Ensino da Prefeitura de Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba). Foi professora substituta na Universidade Federal do Paraná. É palestrante e professora de graduação e pós-graduação (Lato Sensu) em áreas correlatas à formação e à experiência. Atualmente trabalha como professora assistente na Universidade Positivo Também coordena os cursos de Especialização em Neuropsicologia Educacional e em Desenvolvimento Infantil na Universidade Positivo. Membro do Grupo de Pesquisa Cognição, Aprendizagem e Desenvolvimento Humano. Membro do Laboratório de Estudos sobre Atenção e Estimulação Precoce de Bebês (LABEBÊ), o qual conta com a parceria de pesquisadores do Grupo de Investigación en Atención Temprana, da Universidade de Murcia, Espanha. Tem experiência na área da Educação Especial e Educação Inclusiva. Atua principalmente nos seguintes temas: educação especial, neuropsicologia educacional, necessidades educacionais especiais, inclusão educacional, desenvolvimento infantil e processos cognitivos, formação de professores, pesquisas em prevenção e promoção do desenvolvimento da criança pequena, na Educação Infantil e em ambientes de intervenção precoce, visando a inclusão escolar e social.

nellysouza@gmail.com

A Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva Inclusiva, lançada pelo MEC em 2008, propôs a transversalidade da Educação Especial, prevendo e orientando o atendimento para o público alvo de forma a complementar ou suplementar em Sala de Recursos Multifuncional (SRMF). No presente trabalho, é destaque o atendimento ao aluno com Deficiência Física/Neuromotora, considerada como a condição de comprometimento motor resultante de seqüelas neurológicas que alteram os movimentos, a coordenação motora e a fala do indivíduo. Também se circunscreve a temática à área de Tecnologia Assistiva; esta entendida enquanto recurso ou estratégia utilizada para ampliar ou possibilitar a execução de uma atividade necessária e pretendida pelo alunado com Deficiência Física/Neuromotora. Como seu objetivo maior é favorecer a participação do aluno nas diversas atividades do cotidiano escolar, é fundamental que o professor do Atendimento Educacional Especializado, identifique, conheça e saiba manusear os diferentes recursos de Tecnologia Assistiva, a fim de buscar um ensino/aprendizagem efetivo, onde, tanto o professor quanto o aluno, tenham seus objetivos alcançados e suas necessidades supridas.

Galvão Filho (2009) destaca que a Tecnologia Assistiva se refere a um conceito ainda em pleno processo de construção e sistematização, mas que possibilita aos indivíduos o desenvolvimento educacional e social.

Assim, a questão que norteou esta pesquisa foi: quais recursos de Tecnologia Assistiva voltados para alunos com Deficiência Física/Neuromotora os professores do Atendimento Educacional Especializado, que trabalham em Salas de Recursos Multifuncionais, conhecem e sabem manusear?

Os caminhos da pesquisa

Este estudo tem caráter exploratório e descritivo, e seus dados foram discutidos em uma abordagem qualitativa.  O instrumento utilizado para a coleta de dados foi o Questionário TAE (Tecnologia Assistiva para a Educação) desenvolvido por Manzini, Maia e Gaspareto (2008).   Este instrumento solicita ao respondente que indique 85 itens entre os quais: 1) a disponibilidade do recurso na escola; 2) o conhecimento sobre ele; 3) o domínio sobre o recurso; e, 4) a forma de aquisição, se por meio de projetos do Município, do Estado do MEC, ou se não sabe qual foi a forma de aquisição.

O questionário TAE foi recortado e adequado à realidade estudada. Assim, foram mantidos apenas os 32 recursos de TA destinados aos alunos com Deficiência Física/Neuromotora de acordo com os critérios do autor.

O instrumento utilizado no presente estudo apresentou os seguintes itens: caracterização dos participantes (identificação, gênero, formação, experiência e alunado atendido), objetivos conforme o original do autor (MANZINI, 2008) e posteriormente questões a respeito dos recursos de TA disponíveis nas escolas de acordo com a área da Deficiência Física/Neuromotora.

Realizada em um município da Região Metropolitana de Curitiba, esta pesquisa, teve como critério de participação, que os profissionais atuassem como professores do Atendimento Educacional Especializado das Salas de Recursos Multifuncionais, na rede regular de ensino, e que atendessem no momento do estudo, alunos com Deficiência Física/Neuromotora. Desse modo, o projeto contou com apenas três profissionais como participantes.

Os resultados após análise qualitativa foram divididos em quatro categorias: caracterização dos participantes; disponibilidade/aquisição do recurso na escola, conhecimento do recurso e domínio sobre o recurso.

Caracterizando os participantes

Três professoras responderam ao questionário aqui designadas como P1, P2 e P3.  (P1) atende quatro alunos com Deficiência Física/Neuromotora, (P2) atende dois alunos e (P3) atende um aluno. O quadro 01 apresenta a caracterização das participantes:

QUADRO 01 – CARACTERIZAÇÃO DAS PROFESSORAS DO AEE/SRMF
Participante
Gênero
Graduação
Pós-graduação
Formação no AEE
Formação em TA
P1
Feminino
Pedagogia
Psicopedagogia/
Educação Inclusiva
Sim
Sim
P2
Feminino
Pedagogia
AEE- Mediação na Aprendizagem/
Psicopedagogia Clínica e Institucional
Sim
Sim
P3
Feminino
Pedagogia
Psicopedagogia/
Inclusão
Sim
Não
Fonte: os autores.

A Política da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008) define que, para atuar nas Salas de Recursos Multifuncionais, é imprescindível a formação na área de Educação Especial. Observou-se que todas as professoras possuem um ou mais cursos de pós-graduação na área de atuação: duas professoras possuem pós-graduação em Psicopedagogia e Inclusão e uma em AEE – Mediação da Aprendizagem e Psicopedagogia Clínica e Institucional. Ou seja, os cursos de pós-graduação realizados pelas professoras estão voltados à formação dos professores que atuam no AEE. O tempo de experiência na Educação Especial entre as participantes variou entre dez e três anos de docência.

Quanto a disponibilidade/aquisição dos recursos de Tecnologia Assistiva voltados para os alunos com Deficiência Física/Neuromotora.

O quadro apresenta os dados referentes à quantidade de recursos disponíveis nas salas das professoras e a forma em que estes foram adquiridos pela escola.

QUADRO 02 – RECURSOS DISPONÍVEIS NA ESCOLA/ALUNO 
Participante
Questionário TAE
Quantidade de recursos disponíveis
Quantidade de recursos disponíveis tanto para a escola quanto para o aluno
Quantidade de recursos que somente o aluno possui
Forma de aquisição
P1
32
13
2
1
Não soube informar
P2
32
16
0
0
MEC – 6
Município – 10
P3
32
16
0
0
MEC – 5
Município – 11
Fonte: os autores.

Conforme as informações coletadas foi percebido que na sala da P1 há uma quantidade menor de recursos comparada às salas das P2 e P3, porém, as três professoras apontaram que a quantidade de recursos em suas salas atende a atual demanda de alunos com Deficiência Física/Neuromotora, facilitando que as atividades possam ser plenamente realizadas.

A distribuição dos recursos voltados para alunos com Deficiência Física/Neuromotora foi realizada de modo igual nas salas das P2 e P3. Estas professoras destacaram que alguns dos recursos foram disponibilizados diretamente pelo MEC e a P1 não soube informar a forma de aquisição dos recursos.

Destaca-se que o Manual de orientação do “Programa de Implantação de Sala de Recursos Multifuncionais” (BRASIL, 2010), indica que equipamentos, mobiliários, materiais didáticos e pedagógicos para a organização das SRMFs.

No que concerne à distribuição de recursos utilizados para os alunos com Deficiência Física/Neuromotora, o manual de orientação disponibiliza os recursos: Software para a criação de pranchas de comunicação, Notebook, Computador, Teclado com colmeia, Acionador para computador. Estes recursos estavam presentes nas três SRMFs.

Dos recursos disponíveis na SRMF da P1, dois destes também eram disponíveis para o aluno. Constatou-se ainda que apenas o aluno tinha a cadeira de rodas motorizada, fazendo com que este tenha possibilidade de se desenvolver ainda mais tanto em casa quanto na escola.

De maneira geral, evidenciou-se que os principais recursos disponíveis em comum nas salas foram: 1. Software para a criação de pranchas de comunicação, 3. Notebook com programas para o aluno com deficiência física, 4. Computador com programas para aluno com deficiência física, 5. Colmeia de acrílico para uso em teclado comum de computador, 6. Acionador para computador 21. Recursos pedagógicos adaptados para leitura e escrita, 26. Recursos com velcro, 28. Pastas para comunicação, 30. Figuras para comunicação alternativa, 31. Miniaturas para comunicação alternativa. Os principais recursos disponíveis em alguma das salas foram: 10. Cadeira de rodas de alumínio, 11. Cadeira de rodas de ferro ou aço, 16. Mesa adaptada em PVC, 20. Andador convencional, 22. Jogo da velha adaptada, 24. Caderno imantado, 25. Livro adaptado, 27. Letras emborrachadas com peso e peso e suporte de velcro, 29. Suportes com velcro para quadro de comunicação, 32. Livro adaptado para comunicação alternativa. Os principais recursos não disponíveis foram: 2. Vocalizadores, 7. Pulseira de chumbo, 8. Capacete com ponteira, 9. Cadeira de rodas motorizada, 12. Cadeira de rodas acolchoada, 13. Stand in table tubular, 14. Stand in table em Madeira, 15. Cadeira de posicionamento, 17. Mesa adaptada em madeira, 18. Cadeira adaptada em madeira, 19. Andador com rodas e freio, 23. Caderno de madeira.        Desta forma, foi possível constatar a presença do investimento do MEC e do Município em disponibilizar recursos para as SRMFs.

Do Conhecimento dos recursos de Tecnologia Assistiva voltados para os alunos com Deficiência Física/Neuromotora

O quadro 03 apresenta o conhecimento dos recursos de TA voltados para os alunos com Deficiência Física/Neuromotora.

QUADRO 03 – CONHECIMENTO DOS RECURSOS 
Participante
Questionário TAE
Conhece
Não conhece
P1
32
27
5
P2
32
30
2
P3
32
28
4
Fonte: os autores.

Conforme os resultados obtidos, percebe-se que as três professoras conhecem 89% de recursos. Infere-se que isso ocorre devido às suas formações iniciais até suas formações em TA.

Entre a minoria dos recursos que as professoras indicaram desconhecimento são: 7. Pulseira de Chumbo e 19. Andador com rodas e freio.

Do Domínio dos recursos de Tecnologia Assistiva voltados para os alunos com Deficiência Física/Neuromotora

O quadro 04 apresenta o domínio das professoras sobre os recursos de TA voltados para os alunos com Deficiência Física/Neuromotora.

QUADRO 04 – DOMÍNIO DOS RECURSOS
Participante
Questionário TAE
Sabe manusear
Não sabe manusear
P1
32
25
7
P2
32
29
3
P3
32
23
9
Fonte: os autores.

Os dados revelaram que 80 % dos recursos voltados para área da Deficiência Física/Neuromotora as professoras sabem manusear. Entre a minoria dos recursos que as professoras indicaram a falta de domínio estão: 2. Vocalizadores, 7. Pulseira de Chumbo, 8. Capacete com ponteira, 9. Cadeira de rodas motorizada, 13. Stand in table tubular, 14. Stand in table em Madeira e 19. Andador com rodas e freio.

Discussão dos resultados

Os resultados apontaram algumas evidências referentes ao tempo de docência no AEE, formação em TA, quantidade de recursos disponíveis para as SRMFs, quantidade de recursos que as professoras conhecem e que sabem manusear.

Em relação à quantidade de recursos disponíveis nas SRMFs, observou-se uma média de quinze recursos nas salas das três professoras, ou seja, a quantidade está bastante acima dos cinco recursos voltados para Deficiência Física/Neuromotora disponibilizados inicialmente pelo MEC no “enxoval” de acordo com a legislação e que os recursos disponíveis nas salas de cada uma atendem a atual demanda de alunos com Deficiência Física/Neuromotora. As professoras ainda revelaram que este índice pode aumentar caso exista demanda futura de alunos com diagnóstico de Deficiência Física/Neuromotora que necessite de determinados recursos para seu desenvolvimento. Segundo as professoras, para a aquisição de novos recursos é feita a solicitação para a escola ou para a equipe da Gerência de Educação Especial e Inclusão.

Na análise entre as professoras, destaca-se que a professora P2 possui o dobro de tempo em docência no AEE que as demais, no entanto, todas demonstraram conhecer a grande maioria dos recursos apresentados pelo questionário TAE, a média de conhecimento dos recursos foi 89 %, índice bastante elevado. Observa-se que além de conhecerem todos os recursos que estavam disponíveis em suas SRMFs, também demonstraram conhecimento de alguns recursos que não estão disponíveis em suas salas.

Pode-se inferir que o domínio foi inferior ao conhecimento dos recursos, pois as professoras indicaram conhecer a maioria dos recursos através de suas experiências teóricas e práticas, no entanto para o manuseio, só dominavam aqueles que estavam disponíveis em suas SRMFs, correspondendo a 80 %. Esta diferença foi justificada por não haver demanda de alunos que necessitam da utilização de tais recursos.

Entre os recursos que mais se aproximaram do conhecer e saber manusear estão: 1. Software para a criação de pranchas de comunicação, 3. Notebook com programas para o aluno com deficiência física, 4. Computador com programas para aluno com deficiência física, 5. Colmeia de acrílico para uso em teclado comum de computador, 6. Acionador para computador, 11. Cadeira de rodas de ferro ou aço, 16. Mesa adaptada em PVC, 17. Mesa adaptada em madeira, 20. Andador convencional, 21. Recursos pedagógicos adaptados para leitura e escrita, 23. Caderno de madeira, 24. Caderno imantado, 25. Livro adaptado, 26. Recursos com velcro, 28. Pastas para comunicação, 29. Suportes com velcro para quadro de comunicação, 30. Figuras para comunicação alternativa, 31. Miniaturas para comunicação alternativa e 32. Livro adaptado para comunicação alternativa. Importa destacar também que dos recursos disponibilizados pelo MEC, no enxoval para as SRMFs, as professoras possuem conhecimento e domínio de todos.

As professoras justificaram o conhecimento e domínio dos recursos voltados aos alunos com Deficiência Física/Neuromotora através da pós-graduação, formação continuada oferecida pela Gerência de Educação Especial e Inclusão, troca de experiências entre todas as professoras das SRMFs, formação feita pela terapeuta ocupacional, e pela utilização prática dos recursos em suas salas.

Por fim, todas as professoras participantes responderam, de forma positiva, que conheciam e sabiam manusear a maioria dos recursos voltados aos alunos com Deficiência Física/Neuromotora, possibilitando assim, um atendimento de qualidade para este alunado público alvo da Educação Especial.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir da realidade investigada este estudo permitiu as seguintes reflexões:

  1. Ainda que a TA seja uma área relativamente nova em nosso contexto educacional, conforme evidenciado em literatura pertinente, o AEE, ao fazer uso delas oportuniza ainda mais o processo de inclusão e a promoção de um desenvolvimento amplo dos alunos público alvo da Educação Especial.
  2. E, por isso, o conhecimento e domínio das TAs são indispensáveis na prática do professor do AEE. Na realidade pesquisada, os cursos de formação continuada na área das TAs foram fundamentais nesse aspecto, pois proporcionaram além da socialização de conhecimentos, novas reflexões, novas necessidades, dúvidas e significados, gerando outras oportunidades, perspectivas e estratégias em prol da qualidade educacional.

Finalmente, sugere-se a necessidade de se implementar novos estudos que tenham como objetivo investigar o conhecimento e domínio das TA voltados para Deficiência/Física/Neuromotora pelos professores do AEE em outros municípios visando acompanhar o desenvolvimento e o aproveitamento deste alunado.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Política Nacional da Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, Janeiro, 2008. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf>. Acesso em: 09 nov. 2016.

GALVÃO FILHO, T. A. A Tecnologia Assistiva: de que se trata? In: MACHADO, G. J. C.; SOBRAL, M. N. (Orgs.). Conexões: educação, comunicação, inclusão e interculturalidade. 1 ed. Porto Alegre: Redes Editora, 207-235, 2009.

SOBRAL, M. N. (Orgs.). Conexões: educação, comunicação, inclusão e interculturalidade. Porto Alegre: Redes, 2009. pp. 207-235. Disponível em: <http://www.galvaofilho.net/TA_dequesetrata.htm>. Acesso em: 13 nov. 2016.

MANZINI, E. J.; MAIA, S. R.; GASPARETTO, M. E. R. F. Questionário TAE – TA para educação. Brasília: Comitê de Ajudas Técnicas, 2008. Disponível em: <http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/livro-tecnologia-assistiva.pdf>. Acesso em: 09 nov. 2016.

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