O Brincar E A Art RBEB N03

O brincar e a arte: Conhecendo e brincando com jogos infantis

Abril 2017
Lauriana

Lauriana Mateus Álvares Azevedo

Pedagoga (Licenciatura Plena em com ênfase em Administração e Supervisão Escolar de 1.° e 2.° Grau), no Centro Universitário de Belo Horizonte (UNI-BH), especialista em Gestão, Elaboração e Avaliação de Projetos Sociais em Áreas Urbanas pela Universidade Federal de Minas Gerais  (FAFICH) e especialista em Docência em Educação Infantil pela Universidade Federal de Minas Gerais  (FAE). Atualmente é Supervisora Pedagógica no Colégio Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais e professora regente de educação infantil na prefeitura de Nova Lima, MG.

E-mail: lauriana_azevedo@yahoo.com.br

Imagem Túlio

Túlio Campos

Professor de Educação Física da Escola de Educação Básica e Profissional da UFMG – Centro Pedagógico. Doutorando em Educação pela Faculdade de Educação da UFMG na linha de pesquisa Infância e Educação Infantil. Mestre em Lazer pela UFMG (2010). Licenciado em Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (2007).

E-mail: tulio.camposcp@gmail.com

BATE-PAPO INICIAL OU PRIMEIROS DIÁLOGOS

Os relatos e reflexões apontadas neste artigo são frutos de uma experiência de pesquisa com intervenção pedagógica, desenvolvida em um Centro de Educação Infantil no município de Nova Lima (MG). A intenção desta pesquisa foi conhecer e ampliar o repertório de brincadeiras das crianças de uma turma de 4 anos, em que a professora, que é uma das autoras desse texto, procurou refletir acerca de sua prática pedagógica, relacionando os conhecimentos do brincar e da arte.

As indagações iniciais da professora surgiram enquanto discente do curso de Pós-Graduação Lato Sensu em Docência na Educação Infantil, promovido pela Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, tendo em vista compreender a relação e a importância do brincar e da arte na educação de crianças pequenas, na perspectiva de ampliar seus conhecimentos e as experiências de meninos e meninas a partir de uma reflexão sobre a própria prática da educação infantil.

Nesse sentido, alguns questionamentos surgiram, tais como: O brincar é importante para o desenvolvimento cognitivo das crianças? Por que as crianças têm somente 30 minutos para brincar no recreio, sendo esse o eixo norteador das práticas na Educação Infantil? De que maneira o professor ou professora poderia enriquecer sua prática pedagógica, tendo o brincar e a arte como possibilidade para as crianças apreenderem e compreenderem o mundo? Como articular a arte e o brincar sem instrumentalizar os conhecimentos de cada área?

As principais questões que motivaram a elaboração deste trabalho surgiram no cotidiano da prática pedagógica e vinham, de certa maneira, provocando reflexões acerca de suas ações desenvolvidas junto às crianças. Pedagoga com trajetória em Artes, a professora sentia-se muito incomodada com sua percepção de que o brincar e a arte eram muitas vezes tratados como simples recreação, ocupação do tempo livre na Educação Infantil, ou acabavam tornando-se somente instrumento para outras aprendizagens.

A preocupação de demonstrar a importância do brincar e da arte como conhecimentos com seus saberes próprios gerou a elaboração de um trabalho de intervenção pedagógica com a turma de crianças de 4 anos na qual a professora lecionava. Para fundamentar essa intervenção, foi realizado um diálogo com a literatura, elencando estudos e pesquisas que tematizam o brincar e a arte na Educação Infantil.

Concomitantemente, foi realizada com as crianças a partilha de brincadeiras tradicionais, inspirada no quadro Jogos Infantis (BRUEGEL, 1951). O trabalho de intervenção pedagógica foi desenvolvido no segundo semestre de 2015. A partir da observação do quadro, a professora e as crianças da turma decidiram realizar um levantamento das brincadeiras que ambas conheciam e, posteriormente, compartilharam os conhecimentos acerca das mesmas, que denominaram de “Diálogo com a obra do artista”.

SER PROFESSORA E SER ADULTA?

Todo(a) professor(a) já foi criança e, certamente vivenciou diferentes brincadeiras e maneiras de brincar com outras crianças, adultos, diferentes objetos e em diferentes espaços e tempos. Todo(a) professor(a) também já foi estudante da Educação Básica. Durante o desenvolvimento do trabalho de intervenção, a professora, por vários momentos, pensou em suas experiências na infância e nos primeiros anos escolares, e como essas vivências influenciaram suas escolhas, forma de ser, agir, aprender e ensinar. Como afirma Gouvêa (2011), por um lado, nos situamos, em relação à infância, entre o desconhecimento e uma profunda identificação, pois a infância nos habita e nos visita por meio da memória, do remetimento a um passado que ainda nos persiste e insiste. Por outro lado, na linha tênue entre o desconhecido e a identificação, tentamos compreender e significar a infância, não raro submetendo-a a lógica e racionalidade do mundo adulto.

A escola em que a professora trabalha e realizou a intervenção situa-se na cidade de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais. A proposta curricular da Educação Infantil da Prefeitura Municipal de Nova Lima contempla o brincar, sendo que alguns dos objetivos citados na proposta almejam trabalhos que possibilitam às crianças o desenvolvimento do pensamento simbólico por meio da fantasia, imaginação e capacidade de abstração, expressando sentimentos, valores, interagindo com o mundo, buscando compreendê-lo. Além disso, possibilita levá-las a conhecer acervos culturais de jogos e brincadeiras que fazem parte da cultura local e do patrimônio cultural da humanidade. Nessa direção, tal proposta curricular visa proporcionar às crianças experiências significativas de exploração de objetos e materiais diversos, como brinquedos, sucatas, água, areia, terra, ar etc.

Mesmo com a proposta curricular que prioriza o brincar, a professora não observava os profissionais de sua escola como sujeitos brincantes, ou seja, aqueles professores que brincam e se envolvem de “corpo e alma” nas brincadeiras com as crianças, buscando valorizar ainda mais a linguagem do brincar no cotidiano escolar. Também não percebia que os professores valorizavam o brincar como linguagem, possibilidade que contempla o sujeito em sua totalidade. O que ela mais presenciava era o brincar como uma ferramenta para alfabetizar e melhorar o desenvolvimento motor e cognitivo das crianças.

A professora percebeu que sua prática com as crianças foi se modificando a partir do início do trabalho de pesquisa. Ela foi percebendo-se como uma professora brincante, o que não acontecia anteriormente. Antes, ela não conseguia brincar com as crianças, ficava somente observando-as para que não se machucassem. De alguma forma, sentia-se “travada”, apesar de saber a importância de sua participação nas brincadeiras. Hoje, a professora se sente mais à vontade, correndo, brincando de pique- esconde, amarelinha, ensinando e aprendendo com as crianças. Assim, consegue perceber de maneira mais tácita que as crianças gostam de sua presença nas brincadeiras e isso faz com que se aproximem ainda mais, trocando confidências e experiências.

Nessa direção, Debortoli (2002, p. 84) nos contempla com a seguinte passagem ao dizer que:

Quando o adulto se envolve no brincar com as crianças, partilhando a construção das regras, ensinando novas coisas, deixando que as crianças lhe ensinem outras, este tem a oportunidade de ajudá-las a organizar a sua experiência.

No processo de envolvimento com crianças, percebemos de maneira mais reflexiva, que elas brincam com os objetos, com o próprio corpo e com as pessoas que estão próximas delas. Elas escondem e procuram por objetos, explorando-os e dando-lhes significados e, à medida que crescem, vão ampliando sua forma de explorá-los, tornando possíveis novas brincadeiras como a imitação, jogos simbólicos e de regras. Nesse sentido, concordamos com Debortoli (2002, p. 81), quando traz a seguinte passagem ao falar do brincar: “A criança produz cultura, tem conhecimentos, tem competências. No brincar e nas brincadeiras, a criança participa da construção do mundo. Progressivamente, vai experimentando o mundo”.

Assim, foi a partir dessas concepções que as ações foram desenvolvidas pela professora e sua turma de crianças de 4 anos. As reflexões sobre a prática pedagógica foram sendo compartilhadas com o professor orientador da pesquisa e foram construídas diferentes leituras e releituras das brincadeiras retratadas na obra de Pieter Bruegel.

O BRINCAR E A ARTE: REPENSANDO A MANEIRA DE SER PROFESSORA

A apresentação e observação da obra do quadro de Pieter Bruegel levou as crianças a reinventarem várias formas de brincar, apropriando-se das experiências retratadas na obra, reconstruindo e desenvolvendo outras formas e maneiras de brincar no cotidiano da escola.

Antes de apresentar a obra para a turma, a professora conversou a respeito das brincadeiras que o grupo de crianças conhecia e gostava de brincar. No bate-papo, apareceram brincadeiras como esconde-esconde, futebol, casinha, boneca, carrinhos, pega-pega, roda e amarelinha. Após esse primeiro momento, a imagem do quadro de Pieter Bruegel foi apresentada para as crianças, que ficaram um bom tempo observando seus detalhes.

Figura 1Jogos infantis, de Pieter Bruegel. Holanda, século XVI.

Fonte: Micklethwait (1997).

A professora se surpreendeu com o interesse das crianças pela obra, pois elas ficaram muito tempo olhando a imagem, compenetradas. Por se tratar de crianças de 4 anos, a professora achou que elas ainda não possuíam concentração suficiente para apreciarem uma imagem tão detalhada, mas estava enganada. Podemos perceber que nós, adultos, precisamos compreender mais as crianças e suas diferentes formas de expressão. Nessa linha de pensamento, Debortoli (2002, p. 84) nos diz que o

adulto tem uma temporalidade diferente da criança. Quando a criança chegou no mundo, o adulto já estava, já havia uma cultura produzida. O adulto tem a responsabilidade de apresentar esses conhecimentos que, historicamente, foram produzidos e a criança tem o direito de se apropriar deles.

Após o primeiro momento de observação, a professora decidiu perguntar às crianças o que elas teriam a dizer acerca do que observavam. Muitas destacaram brincadeiras que conheciam ou já haviam realizado em algum momento, tais como: cavalinho, bolinha no buraco (gude), dar mortal, rolar no tambor etc. As crianças começaram então a identificar algumas brincadeiras e perguntar sobre outras que não conseguiam identificar o nome, como o pula carniça e balança caixão. Foi feito o registro dos nomes das brincadeiras conhecidas retratadas na obra e as crianças escolheram brincadeiras que queriam realizar no pátio. Professora e crianças resolveram levar a imagem para o pátio. As crianças compreenderam que a imagem poderia ser manipulada a qualquer momento que achassem necessário, buscando a brincadeira que elas quisessem aprender ou brincar.

Nesse dia, várias brincadeiras foram realizadas pela turma no pátio da escola. A professora envolveu-se nas brincadeiras com as crianças, reinventando e descobrindo novas formas de brincar. Essa experiência foi fundamental para pensar novas estratégias para encontros posteriores. Também foi muito importante pesquisar acerca da obra de arte e das brincadeiras desconhecidas, ajudando na interação com as crianças. Após alguns encontros explorando diferentes brincadeiras, as crianças fizeram registros por meio de desenhos e também utilizando massa de modelar. Elas puderam retratar as brincadeiras que mais gostaram de realizar. Posteriormente, todos os registros foram apresentados para a turma e todos conversaram sobre cada produção. Ao longo do encontro com as crianças, também foram realizados registros fotográficos. No encerramento do projeto, essas fotos foram expostas em um quadro, demonstrando todas as brincadeiras vivenciadas. O quadro de fotografias foi compartilhado com toda a instituição.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao longo do desenvolvimento deste trabalho foi possível perceber que as crianças gostam de brincar e aprender novas brincadeiras com os adultos. Ao refletir sobre sua própria prática pedagógica, a professora percebeu que brincava pouco com as crianças. Percebemos como é importante para todos os professores o exercício de reflexão sobre sua própria prática, sobre o que está sendo planejado e desenvolvido com as crianças da Educação Infantil.

Nessa perspectiva, podemos colocar alguns questionamentos, a fim de provocar outros professores que atuam na Educação Infantil e que, de certa maneira, ainda não fazem parte da brincadeira com as crianças, sendo eles: Quais brincadeiras têm sido proporcionadas para as crianças na Educação Infantil?Que valor as brincadeiras estão tendo na escola? De que maneira os adultos participam das brincadeiras com as crianças na escola?

Diante dos relatos e reflexões que este texto aponta, acreditamos ser importante possibilitar novas experiências do brincar para e com as crianças na Educação Infantil. Certamente, mais do que uma simples ferramenta para a aprendizagem, o brincar deve ser compreendido como uma forma de construção do conhecimento (DEBORTOLI, 2002; PEREIRA, 2005). Está sob nossa responsabilidade, enquanto adultos que compartilham experiências com as crianças, ampliar, enriquecer, aprender e reinventar o sentido de brincar no cotidiano das instituições de Educação Infantil.

 

 

 

REFERÊNCIAS

BRUEGEL, P. Jogos infantis. 1560. 1 original de arte, óleo sobre tela, 118 cm × 161 cm.

DEBORTOLI, J. A. O. As crianças e a brincadeira. In: CARVALHO, A.; SALLES, F.; GUIMARÃES, M. (Org.). Desenvolvimento e aprendizagem. 1. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2002. v. 1, p. 77-88.

_____. Reflexões sobre as crianças e a educação de seus corpos no espaço-tempo de Educação Infantil. Paidéia, Belo Horizonte, v. 5, n. 4, p. 79-111, 2008. Disponível em: <http://bit.ly/2mNb3kx>. Acesso em: 29 nov. 16.

GOUVÊA, M. C. S. Infantia: entre a alteridade e a anterioridade. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 36, n. 2, p. 123-154, 2011.

MICKLETHWAIT, L. Para a criança brincar com arte. São Paulo: Ática, 1997.

PEREIRA, E. T. V. Brincar e criança. In: CARVALHO, A.; SALLES, F.; GUIMARÃES, M. (Org.). Brincares. 2. ed. Belo Horizonte: UFMG, 2005. v. 1, p. 17-27.

TERRITÓRIOS DO BRINCAR: Disponível em: <http://bit.ly/1KsegMx> Acesso em: 29 nov. 2016.

[1] Este texto é fruto do trabalho de conclusão do Curso de Especialização em Docência na Educação Infantil (DOCEI) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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