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As diferentes perspectivas na formação dos adultos: Da repetição à autoformação

Out - Dez / 2016
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Renato Hilário dos Reis

Possui Mestrado em Educação pela Universidade de Brasília (1988) e Doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2000). Atualmente é Professor Associado III da Universidade de Brasília. É membro pesquisador do Grupo de Ensino, Pesquisa e Extensão em Educação Popular e Estudos Filosóficos e Histórico-Culturais-GENPEX. Coordena a pesquisa-ação: As significações do Texto Coletivo no processo alfabetizador de jovens e adultos do Paranoá/Itapoã -UnB/Cedep; a partir de 4/2013. 

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Márcia Castilho de Sales

Professora aposentada da Secretaria de Educação do Distrito Federal, atuando na Educação Profissional integrada a Educação de Jovens e Adultos. Doutoranda em Educação na Faculdade de Educação da UnB. Mestre em Engenharia de Mídias para a Educação pela Universidade de Poitiers – FR, Especialista em Tecnologia Educativa pela Universidade Técnica de Lisboa – PT e em Formação de Professores para início de escolarização pela Universidade de Brasília. Atualmente desenvolve formação pedagógica para professores do Instituto Federal de Brasília.

Existe uma inquietação com a lógica tradicional de formação de jovens adultos numa instituição escolar, na qual os mesmos jovens são enquadrados pelo que não sabem, e não pela sua bagagem de vida e conhecimentos já adquiridos. O sistema os nivela, para facilitar o trabalho pedagógico pré-determinado, que estabelece o que eles precisam saber e por quanto tempo em média irá durar sua formação. Não cabe a eles discutirem essa lógica. Eles devem se inserir nessa instituição escolar que reproduz os processos de exclusão e segregação tão intensos em nossa sociedade.

Compreender o processo histórico de formação da modalidade de Jovens e Adultos é resgatar na sua origem a educação popular e as lutas dos movimentos sociais direcionada aos sujeitos das classes populares, compreendidos como protagonistas emergentes de um processo. Na educação de jovens e adultos, a diferença se expressa numa ação pedagógica hegemônica, que molda suas unidades escolares e seu programa de educação, e seus sujeitos são considerados como beneficiários tardios de um benefício.

A partir dessas definições, passaremos a analisar a trajetória da formação de jovens e adultos ao longo do tempo e como ela vem se materializando conforme contextos e práticas.

Breve trajetória da formação em Educação de Jovens e Adultos

Em função da expansão da sociedade capitalista e sua inserção produtiva, passa a ser obrigatório e necessário o sujeito escolarizado, tornando-se um direito fundamental de todos e todas. A confirmação do sufrágio universal – o direito ao voto – e a construção da sociedade industrial impõem uma série de mudanças nas relações sociais e trabalhistas.

Além disso, o crescimento econômico, fruto de avanços tecnológicos e progressos científicos, leva a duas constatações: a necessidade de ofertar uma boa qualificação profissional e a mobilidade funcional dos sujeitos frente às várias oportunidades de emprego.

A experiência de emancipação de Freire(2013), na década de 60, proporcionou uma reflexão no sistema escolar, ade formar a classe trabalhadora,objetivando o entendimento da sua situação de oprimido e agir em favor da própria libertação. Para isso, a compreensão da realidade, no sentido de desvelá-la, é condição para uma ressignificação do sujeito coletivo da EJA, problematizando a própria história e seu papel social.

Diferentes concepções de formação de jovens e adultos foram concretizadas conforme o cenário ideológico para a manutenção da hegemonia; então, como considerar o sujeito coletivo na educação de jovens e adultos?

 

As possibilidades contemporâneas de formação de jovens e adultos

O cenário atual é desafiador para a educação de jovens e adultos. Inserida como uma modalidade da educação básica, com regulamentação própria, pode ser ofertada conforme legislação, nas formas presencial, semipresencial e a distância. Apesar de existirem algumas iniciativas pontuais de flexibilização curricular, ainda predomina a organização curricular na perspectiva cientificista, excessivamente tecnicista e disciplinarista.

Não há como analisar o discurso humano, omitindo o contexto histórico onde é produzido. As manifestações culturais e a forma como o sujeito é constituído revelam-se como campos de aprendizagem, transformando o sujeito e este transformando o meio. Na sua obra,Vigotski (2001) afirma que somente por meio de nossas relações com os outros indivíduos nos tornamos nós mesmos. Assim, o trabalho pedagógico desenvolvido na perspectiva da emancipação/libertação exige o enfrentamento de situações problemas do cotidiano, presentes no contexto histórico-cultural em que vivem os jovens e adultos.

Oliveira (2007) observa a importância de se considerar, na organização curricular da EJA, os processos de tessituras de conhecimentos à luz da “árvore de conhecimentos”, constituindo uma rede de saberes, superando a lógica linear e hierárquica de aprendizagens. Para Oliveira, a tessitura do conhecimento em rede pressupõe a valorização dos conhecimentos dos sujeitos sociais, a partir da conexão com outros saberes em rede, interagindo com os interesses, crenças, valores ou saberes daquele que escuta.

Nesse contexto, Fontana(2000) argumenta que o sujeito é constituído no campo da intersubjetividade e desenvolver experiências de aprendizagem nessa perspectiva é levar em conta a importância de resgatar tanto a história do grupo social em que o sujeito se encontra inserido quanto sua história pessoal. Para isso, a abordagem das histórias de vida penetra na formação de adultos como forma de tecer os saberes do indivíduo e do grupo, vivenciando o compartilhado, reconhecendo e inserindo na história narrada, opinando sobre fatos e ações, construindo novas possibilidades.

O conceito de autoformação, então, se constitui numa dimensão pessoal de reencontro reflexivo sobre as questões do cotidiano, fazendo-nos problematizar o passado para empreender projeto futuro, permitindo que o indivíduo possa se autoeducar de maneira permanente. Somos um acumulado de reações sociais sempre em movimento e transformação (PINEAU, 1999).

É possível uma mudança paradigmática que leve para a formação de jovens e adultos uma outra lógica de organização do seu sistema escolar?

 

O gerenciamento de saberes como proposta de autoformação.

A compreensão da sociedade de informação e comunicação, tão focada na exploração e consumo, impulsionou muitos autores que buscavam justiça social e democracia. Os autores Lévy e Authier (2008) enfatizam que a rede mundial de computadores pode renovar as relações sociais, proporcionando mais fraternidade e ajudando a resolver os problemas que hoje preocupam a humanidade.

Pierre Lévye Michel Authier constituíram em 1992 uma proposta que abre possibilidades na formação de homens e mulheres na luta contra a exclusão. Eles criaram uma proposta chamada “As árvores de conhecimentos” que é um método informatizado para a gestão global das competências nos estabelecimentos de ensino, nas empresas, nos centros de emprego, nas coletividades locais e nas associações.

A opção pelo uso de um software para o gerenciamento de saberes oferece aos utilizadores uma série de possibilidades, e outros fazeres passam a ser potencializados na formação de jovens e adultos e na Educação Profissional, ele permite organizar os conhecimentos por indivíduos, instituições, comunidades e empresas, promovendo articulação e parcerias.

A Educação Profissional integrada à Educação de Jovens e Adultos

A constituição de uma rede de conhecimentos na Educação Profissional integrada à Educação de Jovens e Adultos é promissora, pois o dispositivo pode promover a comunicação e a articulação entre sujeitos, grupos e empresas, facilitando a busca de perfis para empregos e a formação específica. Nessa lógica, um curso teria seus próprios conhecimentos e saberes necessários que devem ser alcançados.

Desse modo, a árvore de conhecimentos de um curso seria a relação de competências das disciplinas e outros saberes necessários. Cada saber definido e alcançado permitiria que o aluno fosse organizando sua árvore e reconhecendo suas lacunas e potencialidades de formação, fazendo a gestão de seus saberes para o alcance dos seus projetos. A instituição pode propor parcerias vinculadas ao perfil profissional do curso, participando da rede de saberes e concretizando o espaço virtual como um espaço de negociação efetivo. A árvore seria o espaço virtual organizado do conjunto de competências de uma comunidade/curso, partindo das experiências dos seus sujeitos. Ela teria uma visão além das disciplinas e o programa do curso, pois as conexões com saberes e experiências, com outras instituições e estudantes, possibilitariam novas configurações da árvore, permitindo contatos e aproximações no virtual, para serem concretizados no real. Além disso, cada aluno desenvolveria seu próprio projeto de formação, buscando no virtual as estratégias e conexões necessárias para alcançá-las. Práticas profissionais não certificadas e afins ao perfil tecnológico poderiam e deveriam ser desenvolvidas, pois correspondem à abordagem das histórias de vida desses atores, tão importantes para a análise reflexiva laboral.

O interesse e o desejo de aprender poderá ser ampliado, pois, à medida que o acesso ao saber se torna menos complexo, que o percurso de aprendizagens definido é valorizado e que ele possui no sistema sua individualidade considerada, o estudante passa a ter mais protagonismo.

Conclusões provisórias

Tantas mudanças já observamos no cenário mundial no campo tecnológico e científico. Se tudo isso já está sendo possível, porque ainda existe uma enorme resistência em implantar um sistema de formação para os jovens e adultos que os trate nas suas singularidades, prestigiando suas experiências de vida e formando-os com autonomia? Porque o sistema hegemônico de organização escolar é tão difícil de se modificar?

Talvez conheçamos as respostas… Desenquadrar processos paradigmáticos fundamentais, entre outros, do positivismo, que desde há um século estruturou tanto o ato de ensinar como sua abordagem atomizadora, não é fácil. Como também não é fácil atender às especificidades dos jovens e adultos, trabalhar com suas experiências de vida e de trabalho, flexibilizar programas e projetos de formação, implantar um sistema de gerenciamento de saberes em rede e de autoformação.

Referências

FONTANA, Roseli. A constituição social da subjetividade: notas sobre a Central do Brasil. Educação & Sociedade, ano 21, n. 71, julho/2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva.Por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Edições Loyola, 2000.

LÉVY, Pierre; AUTHIER, Michel.As árvores do conhecimento. São Paulo: Editora Escuta, 2008.

OLIVEIRA, Inês.Reflexões acerca da organização curricular e das práticas pedagógicas na EJA. Curitiba: Editora UFPR. Educar, n. 29, p. 83-100, 2007.

PINEAU, Gaston. Experiências de aprendizagem e histórias de vida. In: CARRÉ, Philippe;CASPAR, Pierre. Tratado das Ciências e das Técnicas da Formação. Lisboa, PT: Instituto Piaget, 1999.

VIGOTSKI, L.S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

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  1. Parabéns aos professores Renato Hilário e Márcia Castilho. O Artigo de vocês foi o que primeiro me despertou o interesse de leitura deste primeiro número da Revista Brasileira da Educação Básica. Admiro muito aqueles que, por “n” motivos não não conseguiram estudar quando mais jovens e, depois de certa idade, se enchem de coragem e de esforço para frequentar a EJA. Então, diante disso, e lembrando muito do que o professor Miguel Arroyo também afirma sobre a valorização dos saberes, encontrei no Artigo de vocês a reafirmação de que devemos potencializar a nossa inquietação com a lógica tradicional de formação de jovens adultos. E aí “desenquadrar” os conceitos de valores, e fazer desse convívio na sala de aula um aprendizado valorizando também a bagagem de vida e de conhecimentos dessas pessoas. Assim como as crianças, elas também tem muito a nos ensinar.

    1. Obrigada Vera por suas palavras.
      Acreditamos profundamente que a modalidade de Jovens e Adultos precisa urgentemente de diversificação de currículos, baseada na valorização de saberes e numa pedagogia do diálogo, de base Freireana.
      Isso acolherá melhor nossos estudantes e os valorizará nessa sociedade excludente. Abçs

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