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Universidade e Educação Básica integrando saberes

Jan-Abr 2020
Ivane Perotti

Ivane Laurete Perotti

Professora/pesquisadora concursada na Universidade do Estado de Minas Gerais. Professora da Educação Básica e Escola para Jovens e Adultos. Especialista em Metodologia e Prática da Língua Portuguesa/UNICAMP/SP, mestre em Linguística/FSC/SC/Análise do Discurso. Escritora de livros infantojuvenis e adultos.

E-mail: ivaneperotti@hotmail.com

Introdução

O presente artigo descreve o desenvolvimento de ações propostas por um projeto de integração entre a Escola Estadual Anita Brina Brandão e o Curso de Pedagogia/CBH, da Universidade do Estado de Minas Gerais, no período de dois anos consecutivos – 2018/2019, com enfoque à participação de alunos a partir do 6º ano, do Ensino Médio e de alunos da Educação para Jovens e Adultos – EJA.

Partindo de um evento demarcado no calendário acadêmico do curso de Pedagogia da UEMG, na Faculdade de Educação em Belo Horizonte – Reflexões sobre a ação docente –, o projeto envolve atividades de integração entre os saberes da pedagogia e os saberes de alunos na educação básica, assumindo a perspectiva de experiência na visão de Bondía: “A experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece ou o que toca” (BONDÍA, 2002, p. 21), tendo em vista que a sistematização do conteúdo curricular pode ser desenvolvida através de ações pensadas para o pensar, “e pensar não é somente ‘raciocinar’ ou ‘calcular’ ou ‘argumentar’, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece” (BONDÍA, 2002, p.21, grifo do autor).

O aparente distanciamento entre academia e escola não necessariamente impede a excelência nos universos da educação básica, tanto quanto a base da formação dos cursos de pedagogia não perde em teoria e prática, quando a integração entre saberes se dá na medida da experiência que nos toca, nos acontece, como reflete Bondia (2002).

Aprender e ensinar são processos que se entrelaçam nos conceitos de aprender para ensinar, ensinar para aprender, ensinar e aprender a ensinar, aprender no ensino, ensinar para aprender a apender, no contínuo das relações estabelecidas entre espaços e tempos da aprendizagem da escola e da vida. A escola da vida apresenta ciclos marcados pelas narrativas de seus sujeitos, nem sempre levadas à voz e à observação. Aprender a ensinar, então, é destacadamente levar em conta os conhecimentos construídos pelos sujeitos no decorrer de suas histórias, pois eles, conforme Freire, “[…] trazem consigo compreensão do mundo, nas mais variadas dimensões de sua prática na prática social de que fazem parte.” (FREIRE, 1992, p. 85-86). E este é objetivo central do projeto: promover espaços de construção do conhecimento sem a fronteira do periodismo ou a delimitação das séries escolares. Partiu-se, então, da interação pela palavra, novamente fundamentando-se nas reflexões de Jorge Larossa Bondía:

O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver com a palavra, se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é o homem, se dá na palavra e como palavra. (2002, p.21).

Metodologia

Para dar conta das palavras em trânsito entre os aprendentes na proposta, desenvolveu-se a primeira parte do projeto principal: Projeto Escrevendo Conversas, dentro de atividades ementárias dos Núcleos Formativos IV, V e VI, nas aulas de Língua Portuguesa: metodologias e práticas para o ensino e na disciplina de Língua Portuguesa envolvendo os alunos da educação básica. Ao estudar o sujeito social, a psicogenia da língua escrita, a escrita, os níveis de alfabetização, os gêneros textuais, a formação do leitor/escritor os acadêmicos do curso de pedagogia foram ao encontro do conteúdo sistematizado nas aulas de LP na escola, no contexto de estudo do gênero textual carta. A carta informal, trocada entre amigos ou familiares, tem desaparecido da cultura escrita devido midiatização. Motivar uma troca de escritas permitiu aos acadêmicos de pedagogia- professores em formação- e aos alunos da escola pública a identificação dos sujeitos tanto do ensino quanto da aprendizagem. As cartas foram escritas com a autorização dos responsáveis e trocadas semanalmente, tendo a professora das duas disciplinas como condutora das escritas entre os dois espaços. Desta forma, deram-se a conhecer alunos e professores em formação.  Recorte desse processo registra-se em duas fotos:

Foto 1- Acadêmicos do Curso de Pedagogia, NF VI A, encaminhando as primeiras cartas.Fonte: foto dos arquivos do projeto/primeira fase.
 Foto 2 – Alunos da Escola Anita Brina Brandão recebendo as primeiras cartas.Fonte: fotografia dos arquivos do projeto/primeira fase.

Primeiro encontro

O ato da escrita no gênero carta aproximou os sujeitos do projeto, favorecendo a troca de narrativas, estabelecendo relações de afetividade, de troca de experiências e até mesmo de orientações. As cartas, gênero textual escolhido para registrar a comunicação informal entre os participantes, deram início a questionamentos sobre os “fazeres escolares” e à construção de sentidos outros: a) como era a academia? b) quais os objetivos pensados ao cursar uma graduação? c) como a escola funcionava na visão dos alunos? O que os alunos do Ensino Médio gostariam de aprender dentro de uma universidade? “Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos.” (BONDÍA, 2002, p. 21). Enquanto as palavras escritas criavam sentidos, preparou-se o primeiro encontro na sede da FaE/CBH/UEMG, dentro do evento Reflexões sobre a ação docente, com oficinas extraídas do conhecimento, do gosto, das demandas dos alunos da E.E. Anita B. Brandão, sob o título As múltiplas leituras e ações do ensino e da aprendizagem lúdica, e com a parceria de todos os professores do mesmo núcleo formativo. Ao serem calorosamente recepcionados, os alunos visitantes encontraram os autores das cartas e participaram de várias oficinas organizadas pelos acadêmicos do NF VI A, entre elas: oficina de rádio e locução (podcast ao vivo), batalhas de MCs e grafite, conhecimento da história e confecção de Bonecas Abayomi, confecção de tranças, oficinas de jogos inclusivos (Libras), oficina de terraria (plantas) e oficinas de brincadeiras: corpo e movimentos. Algumas fotos da primeira fase do projeto:

Foto 3 e 4 – Chegada dos alunos à FaE/UEMG e confraternização:
Fonte: arquivo de fotos do projeto execução primeira fase.
Foto 5 e 6- Oficinas: História e Confecção das Bonecas Abayomi e Corpo e Movimento:
Fonte: arquivo de fotos do projeto execução primeira fase.
Foto 7 e 8 – Oficina de Rádio e Locução e Oficina de Jogos Inclusivos – Libras:Fonte: arquivo de fotos do projeto execução primeira fase.

No duelo de MCs criou-se um lugar para a poesia, para a arte de se fazer presente no universo da resistência e para a aprendizagem crítica. Professores, alunos e MCs fizeram da sala de aula um espaço para a literatura:

Foto 8 e 9 – Oficina de Duelo ou Batalha de MCs e a Arte do Grafite:Fonte: arquivo de fotos do projeto execução primeira fase.
Foto 10 e 11 – Oficina de Terraria, reciclagem e sustentabilidade:Fonte: arquivo de fotos do projeto execução primeira fase.

Segunda fase

Com a execução da primeira fase, o projeto organizou-se para fechar o semestre levando as oficinas realizadas dentro da universidade para o espaço da escola Anita B. Brandão, retribuindo visitação anterior. Assumindo o conceito de educação vivenciada, aprendentes, professores e funcionários envolveram-se nas oficinas lúdicas, poéticas, de apoio à sustentabilidade, ao meio ambiente, à cultura do hip hop, à literatura musicada – batalha de MCs sobre as profissões -, à rádio e à locução, ao movimento do corpo, às histórias contadas, à confecção de tranças, à leitura em biblioteca móvel, às brincadeiras africanas, à confecção de bonecas Abayomi e sua história dentro da história.

As batalhas sobre as profissões foram conduzidas pelos MCs, com a participação integral da Escola Estadual Anita Brina Brandão, dos acadêmicos da UEMG e de duelistas do Grupo Nu Trilhar, no auditório da escola. A proposta cumpriu com a realização de duas rodadas de quatro duelos, participação de alunos nas batalhas e premiações.

Foto 11 2 12 – Batalhas sobre as profissões com a participação especial de MCs/Nu Trilhar – a Nu Trilhar é formada por vários MCs com projetos pensados para as escolas de BH.Fonte: arquivo de fotos do projeto em segunda fase de execução.

Na oficina de Leitura e Contação de Histórias, uma biblioteca solidária promoveu  a leitura e o “registro de convites para outras leituras”, estabelecendo a troca e a doação de livros entre os alunos da Escola Anita Brina Brandão. O convite deu-se em forma de registro na ficha presente na contra-capa dos livros: o aluno leitor é convidado a registrar por  escrito uma observação sobre a obra, endereçando-a para outros leitores dentro e fora da escola.

Foto 13 e 14 – biblioteca ao ar livre – Biblioteca Solidária:Fonte: arquivo de fotos do projeto em segunda fase de execução.

Para conhecer a história de outras culturas, a troca de saberes reuniu conhecimento, respeito às diversidades, reutilização de materiais recicláveis e criatividade. Na história das bonecas Abayomi, ocorreu a integração das práticas do artesanato e o reaproveitamento de retalhos de tecidos recolhidos com a participação da comunidade escolar. À história dessas bonecas, agregou-se a contação de histórias familiares partilhadas pelos alunos: “As palavras com que nomeamos o que somos, o que fazemos, o que pensamos, o que percebemos ou o que sentimos são mais do que simplesmente palavras.” (BONDÍA, 2002, p. 21)

Foto 15 e 16 – Alunos, professores e acadêmicos desenvolvendo as bonecas AbayomiFonte:arquivo de fotos do projeto em segunda fase de execução.

A oficina de terraria ou terrário considerou lúdico, saudável, prático e relevante aprender sobre a importância do equilíbrio em um ecossistema completo: suculentas foram plantadas em vidros reciclados como forma de instigar ações em favor do meio ambiente. O cuidado para com as plantas durante e após o plantio provocou a emergência de narrativas individuais entre os participantes da oficina, relacionadas aos cuidados e à manutenção da vida, ao comportamento humano extrativista e às vantagens criativas das reciclagens. .

Foto 16 e 17 – Oficina de Terraria/Terrário.Fonte:arquivo de fotos do projeto em segunda fase de execução

As demais oficinas foram igualmente realizadas, motivando a participação dos alunos, aprendentes de saberes não distantes de seu contexto, de suas demandas e situações de vida.  Em uma grande aula aberta, fez-se aprendizagem entre ações e partilhas de conhecimentos.

Foto 17 e 18 – Oficina de TrançasFonte:arquivo de fotos do projeto em segunda fase de execução

Considerações

A proposta do projeto tem encontrado espaço para desenvolver-se em outras escolas públicas, nas quais já se instalou a primeira fase de conhecimento pela e na palavra escrita, produzindo a troca de conhecimentos através do gênero textual carta informal. Dentro da Escola Estadual Anita Brina Brandão, a comunidade escolar mantem a proposta para outras oficinas a serem desenvolvidas no decorrer do ano, a partir de novas demandas e temáticas de interesse do alunado e do corpo docente.

Acredita-se importante destacar o envolvimento dos alunos enquanto sujeitos da aprendizagem em todo o processo de execução do projeto, observando-se que alunos de outras instituições de ensino agregam-se ao trabalho voluntariamente, empoderando as ações  e a sustentação do trabalho. Vale destacar a participação de alunos da PUC/MG, da FaE/UFMG, do curso de Dança/UFMG, de contadores de história sem vínculos diretos com a universidade e a escola,  de artesãos e especialmente de MCs do grupo Nu Trilhar. As parcerias são voluntárias e gratuitas, reforçando a ideia base do projeto: na troca de conhecimentos todos são aprendentes e facilitadores, todos aprendem a aprender e a ensinar.

Considerando que a educação tem escopo de profundas dimensões, a reflexão de Paulo Freire ganha sentido de experiência dentro de todo o projeto: “Aprender a ler e escrever já não é, pois, memorizar sílabas, palavras ou frases, mas refletir criticamente sobre o próprio processo de ler e escrever e sobre o profundo significado da linguagem.” (FREIRE, 2001, p. 58), só assim a linguagem ganha espaço para significar o mundo, as narrativas do mundo e o mundo das narrativas. A reflexão crítica se fez presente em todos os espaços de construção dos fazeres do projeto, alternando-se entre discussões atualizadas acerca dos interesses dos envolvidos e dos retornos explanados após cada etapa das ações efetivadas.

Um registro para “não” finalizar: possivelmente, o encontro entre os destinatários das cartas é momento único e impulsiona outras conversas dentro do projeto aberto para a renovação. Contudo, para falar desses encontros, novos trabalhos se fazem necessários.

 

 

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

_____________ . Extensão ou comunicação? Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2001.

LARROSA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação. 2002, n.19. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbedu/n19/n19a02.pdf. Acesso em: 10 de maio de 2019.

Imagem de destaque: Ivane Perotti

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