Professores, aula e autoria- por: Luciano Mendes de Faria Filho

Luciano Mendes de Faria Filho

Possui graduação em Pedagogia, mestrado em Educação pela UFMG e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo. É professor Titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, onde exerce a função de Diretor do Centro de Pesquisa, Memória e Documentação. Atualmente é membro do Conselho Deliberativo do CNPq e da Câmara de Ciências Humanas, Sociais e Educação – CHE da FAPEMIG e coordenador geral do Projeto Pensar a Educação Pensar o Brasil – 1822-2022. 

PROFESSORES, AULA E AUTORIA

Luciano Mendes de Faria Filho
Professor Titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais
lucianomff@uol.com.br

Apesar de considerarmos, entre nós professores (ou pesquisadores) universitários (ou acadêmicos) que a autoria, tal como esta foi produzida e reconhecida em diversos campos do conhecimento e/ou das práticas culturais nos dois últimos séculos, é uma forma singular de reconhecimento, ainda hoje pouco nos mobilizamos para discutir (e reconhecer) a dimensão autoral dos trabalhos desenvolvidos por nossos colegas da escola básica.

Ao fazermos isso, estamos nos negando também a discutir e instituir práticas de autoria desses colegas, as quais são, sempre, como sabemos, práticas de reconhecimento pessoal, social e, logo, de fortalecimento político. Este é, penso, um desafio para nossa área, inclusive porque temos dificuldades até para discutir as práticas de coautoria que ocorrem, seja entre nós, colegas professores universitários, seja com nossos alunos.

Mas a questão é mais complexa, penso. Se a autoria é uma forma por excelência de reconhecimento, qual poderia ser o nosso papel, como pesquisadores, para incentivar e reconhecer as práticas de autoria autonomamente desenvolvidas pelos nossos colegas da escola básica? Não estaria aqui uma estratégia importante de reconhecimento e empoderamento dos professores da escola básica? Não estaria aqui uma estratégia importante de reestabelecimento de uma relação de novo tipo, com o conhecimento e com o conhecer por parte desses nossos colegas? Não estaria aí também uma boa oportunidade para o reconhecimento da relatividade dos nossos conhecimentos e dos nossos modos de conhecer universitários ou acadêmicos?

Aula, texto, conhecimento e autoria podem ser articulados num potente discurso de reconhecimento (e autoconhecimento) dos professores da escola básica (MATTOS,2007). No entanto, há de se perguntar se não estamos, ainda aqui, num regime em que o reconhecimento dos professores da escola básica se dá pela sua própria captura pela gramática e pela estratégia de reconhecimento que é própria do campo acadêmico científico moderno: a autoria de textos. Ou, dizendo de outro modo, seria possível falar da necessidade de reconhecimento da aula como trabalho autoral dos professores – de todos os professores, e não apenas da escola básica – reconhecendo a sua dimensão textual e, ao mesmo tempo, liberando-a das amarras do texto?

A aula, se texto, seria mais literatura do que ciência, sem, no entanto, dela se desligar completamente. Mas não é este, em certo sentido, o lugar mesmo das ciências humanas? Conceber a aula como obra autoral que se estabelece no entroncamento, no encontro entre a arte e a ciência não estaria resgatando a proposta dos pais da pedagogia contemporânea que sempre assombraram os defensores de uma pedagogia científica que articula racionalmente meios e fins com o intuito de bem ensinar? A esse respeito, conviria mais uma vez lembrar R. Barthes quando afirma, a propósito da história e da aula, que “a ciência pode, portanto, nascer do fantasma. É a um fantasma, dito ou não dito, que o professor deve voltar anualmente, no momento de decidir sobre o sentido de sua viagem; desse modo, ele se desvia do lugar em que o esperam, que é o lugar do Pai, sempre morto, como se sabe; pois só o filho tem fantasmas, só o filho está vivo.” (s/d,p.42).

Tal perspectiva compreende o professor não como alguém submetido às amarras do outro, das estratégias dos “poderosos” (gestores, políticos, pesquisadores, autores de livros etc.) e das táticas dos “sem poder” (alunos, pais etc.),e o constitui como um outro da enunciação, da autoria e da autoridade.  Mais do que estar “submetido a” ou “submetendo a”, ele está em “relação com”, o que repõe a questão do poder no coração da educação ou, se preferirem, no coração da sala de aula!

Nesse sentido, cada aula que se encerra, que nós professores encerramos, é uma obra autoral complexa e acabada, apesar de incompleta. A sua articulação (ou encerramento!) num continuum – num currículo, por exemplo – é sempre uma aposta e, sobretudo, fruto de um trabalho narrativo elaborado a posteriori. Nessa perspectiva, a pesquisa sobre o currículo é uma indagação sobre uma falta que, baldados os nossos esforços e dos curriculistas os mais diversos, jamais poderá ser preenchida ou anulada.

Deslocar o olhar do conhecimento pode significar também buscar captar, na densidade da aula, da sala de aula – se queremos ficar apenas nesse complexo universo que é a escola–, as performances e os repertórios mobilizados, atualizados e inventados pelos professores, alunos e demais agentes escolares para promover os variados currículos presentes no ambiente escolar.[1]

Por fim, sem dúvida, uma boa maneira de fazermos isso seria nos reconhecermos como professores e, desse modo, autores de nossas aulas na universidade. Essa poderia ser uma chave que nos obrigaria a lançar sobre as próprias aulas na universidade, sobre a nossa obra e não apenas sobre as dos outros que atuam na escola básica, um olhar atento e responsável. O ensino superior e, mais particularmente, a universidade como espaço-tempo dos “impossíveis da educação” poderia nos revelar muito daquilo que desconhecemos sobre a escola básica, pois como diz o poeta “Quem não a conhece não pode mais ver pra crer. Quem jamais a esquece não pode reconhecer”.

 

Referências

 BARTHES, R.A aula. São Paulo:Cultrix, s/d.

MATTOS, Ilmar H.“Mas não somente assim!” Leitores, autores, aulas como texto e o ensino-aprendizagem de história. Tempo. Rio de Janeiro, 21, 5-16, 2007.

Para conhecer mais sobre o assunto:

ARENDT, Hannah. Entre o presente e o passado.4ª. ed.São Paulo:Perspectiva, 1997.

GUMBRECHT, Hans U. A graciosidade e estagnação. Rio de Janeiro:Contraponto, Ed. PUC-Rio, 2012.

PENIN, Sonia T. de Sousa. A aula: espaço de conhecimento, lugar de cultura.Campinas:Papirus, 1994.

[1]Sobre a questão da performance, ver Educação e Realidade (v. 35, n. 2,2010), que traz vários artigos sobre o assunto.

Luiza Oliveira

Editora Executiva da Revista Brasileira de Educação Básica

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