Pra que serve o Ensino de História? Um debate a partir da formação de professores

Julho - Setembro - 2018

A atuação em sala de aula, enquanto professor de História levou-nos ao entendimento de que os alunos concebem de forma mais satisfatória os debates sobre a temporalidade a partir da relação passado/presente. Neste aspecto, entendemos que as “experiências do tempo” contribuem para dar inteligibilidade ao processo histórico. Como destaca Hartog (2014), essa relação atua como um “regime de historicidade”, que permite ao historiador um questionamento sobre nossas relações com o tempo, “instaurando um vaivém entre o presente e o passado, ou melhor, passados, eventualmente bem distanciados, tanto no tempo quanto no espaço” (HARTOG, 2014, p. 37). Este processo de reflexão sobre as diferentes temporalidades sugere ao aluno “desnaturalizar o tempo, pensá-lo como uma construção social, cultural e narrativa feita pelos homens” (ALBUQUERQUE JR., 2016, p. 24). Portanto, é esse movimento passado/presente que permite ao aluno “pensar historicamente” e, neste aspecto, formular um sentido para o próprio campo do conhecimento histórico.

Em tempos de discussão e formulação sobre uma Base Nacional Comum Curricular, aflora-se o questionamento sobre a essência ou a serventia de cada disciplina. Não é raro ouvirmos em sala de aula: “Pra que serve o ensino de História”? Em minha atuação nos cursos de formação de professores é comum essa indagação misturar-se com a ansiedade da atuação docente. Neste aspecto, as formulações aqui elaboradas foram pensadas para tentar responder essa questão e ao mesmo tempo apresentar alguns debates que envolvem o ensino de História.

No livro “Apologia à História ou o Ofício do Historiador”, de Marc Bloch (2002), inicia o debate sobre o campo da história respondendo ao questionamento feito por uma criança, que indagou o pai: “Pra que serve a História?” Ao respondê-la, o autor produziu um livro denso, que trata fundamentalmente, como apontado no título, do “ofício” do historiador.

Assim como aquela criança, podemos sugerir outro exercício, um questionamento aparentemente simples, mas que traz em si questões fundamentais: para que serve o Ensino de História? Ou ainda: qual a relação entre a historiografia e o ensino de História?

Uma das questões apreendidas nas discussões da disciplina de “Introdução aos Estudos Históricos” remete a noção de processo. Isso quer dizer que o próprio surgimento da disciplina História como um campo analítico dentro das ciências humanas também possuiu uma História. Neste sentido, os conceitos que dão base à metodologia da História não são estáticos, imóveis, eles também sofrem transformações e interferências do contexto. Portanto, a produção da História não pode ser pensada descolada de cada época. Ora, se isso for considerado, podemos afirmar que o presente é quem define, em certa medida, a escrita sobre o passado.

Do mesmo modo que a produção teórico/metodológica da História sofre influências e possuiu sua produção vinculada a diferentes concepções, o mesmo pode ser considerado em relação ao ensino. Ou seja, o Ensino de História também passa por modificações, sofre influência de diferentes contextos, é pensado a partir de concepções de Histórias e articulado a um projeto educacional mais amplo. Há uma intenção, uma proposta de formação dos sujeitos a partir do conhecimento histórico, um ato político, ideológico e parcial sobre o ensino, não apenas de História. Achar o contrário seria acreditar, como os positivistas do século XIX, que existe neutralidade nessa modalidade.

Alguns, nesse momento, podem estar se perguntando: “então o Ensino de História não é neutro e quer moldar alguém? Isso não é doutrinação?” Há uma grande diferença entre esclarecer e assumir um posicionamento em relação à História e ao Ensino de História e querer impor um conhecimento e uma visão como única. Mais uma vez, recorremos a Marc Bloch (2002) quando diz que ao historiador não cabe julgar. O autor aqui não defende a neutralidade, nem a não intencionalidade do ensino e da própria pesquisa historiográfica, ele nos lembra de que não somos juízes; não devemos eleger uma única concepção como verdadeira, nem a que acreditamos como correta.

Neste aspecto, cabe ao professor de História instigar os alunos a pensarem criticamente, tornando-os capazes de descortinar os debates que envolvem o campo do ensino. Claro que em determinadas fases do ensino os alunos ainda não terão uma capacidade de abstração tão elaborada, mas a relação professor/aluno precisa ter um mínimo desse esclarecimento. O problema não é o caráter ideológico, político e intencional do Ensino de História e de outros ensinos, o problema é não admitir a existência desses pontos e tratar o ensino como neutro, tomando sua transmissão como algo técnico.

Retomando a questão do “Pra que Serve a História?” podemos continuar a discussão sobre “Para que serve o Ensino de História?”. Em primeiro lugar, é preciso assumir uma postura que considere a pesquisa e o ensino como algo inseparável, quer dizer, o ensino, a didática, como definiu Fernando Penna (2013), contribui fundamentalmente para a formulação de uma epistemologia da História. Arrisco a dizer ainda que, sem o Ensino de História, esse campo de conhecimento perderia o sentido, a razão de existir. Afinal, como inculcar nos sujeitos certas noções que a História nos aponta sem o espaço escolar? Qual o alcance da pesquisa na sociedade em geral sem esses meios de transmissão do conhecimento? A relação pesquisa/ensino, teoria/prática é algo que precisa ser compreendido e tratado de forma inseparável, pois o ensino sem a pesquisa e a teoria da história, também perde o sentido.

O Ensino de História, seguindo a lógica das concepções, intenções e contextos, serviu a diferentes propósitos. No caso do Brasil, podemos destacar o papel que a disciplina História cumpriu no sentido de “construir a nação”. Neste aspecto o Ensino de História contribuiu consideravelmente para a “formação da identidade”, do “ser brasileiro”. Não por acaso, pouco tempo depois da independência do Brasil criou-se o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838), que seria responsável pela elaboração da “narrativa” sobre a História do Brasil; o Arquivo Nacional (1838), que cumpriria a função de guardar as fontes históricas do país (lembrando que sem fonte não se faz História e que naquele momento fonte seria, basicamente, documentos produzidos pelo Estado); e o Colégio Pedro II (1837-38), espaço onde a História seria transmitida. Reparem que a “fundação” do campo da História no Brasil não desconsiderou o ensino e a aprendizagem dos conteúdos (FONSECA, 1993).

Além da formação da identidade, é delegado ao Ensino de História também o papel de construir a noção de “consciência histórica” com os sujeitos. Ou seja, fazer com que os sujeitos percebam que são parte de um processo, que os fatos não se dão por acaso, que somos sujeitos sociais e homens e mulheres vivendo em nosso tempo, com características próprias de época. Portanto, também somos sujeitos históricos, e nos transformamos durante o processo. E mais, o Ensino de História ajuda a compreender que, se a sociedade é construída, do mesmo modo pode ser desconstruída, quer dizer, as relações não são imóveis e estáticas.

Muitos outros conceitos e noções são transmitidos através do Ensino de História. Nos últimos anos, esse campo, apropriando-se da noção da “História-Problema” tem enfrentado vários debates que emergem da sociedade atual. No caso do Brasil, podemos citar as discussões sobre as minorias (questões étnicas, identidade de gênero), debates sobre tentativas de intervenção no ensino (Escola sem Partido); as disputas narrativas provenientes do avanço de certos setores que até pouco tempo não existiam (redes sociais na internet) e o tradicional conflito entre senso comum e a disciplina da História, alimentado (o senso comum) pela grande mídia.

São muitos os desafios que um professor de História precisa enfrentar atualmente. Como homem de seu tempo, o professor precisa se deslocar e travar um debate com um olhar de pesquisador, para conseguir perceber a estrutura a qual está inserido. Sem se perder do currículo, mas problematizando seu conteúdo. Sem se afastar da pesquisa/teoria, mas tratando-a de forma articulada com o ensino. Junto a tudo isso o professor não pode, nunca, se afastar do questionamento que, ao mesmo tempo é simples e profundo: “Pra que serve o Ensino de História?”.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FONSECA, Selva Guimarães. Caminhos da História Ensinada. Campinas: Papirus, 1993.

HARTOG, François. Regimes de Historicidade: presentismo e experiências do tempo. Belo Horizonte: Autêntica, 2014.

BLOCH, Marc. Apologia da História, ou, o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

PENNA, Fernando de Araujo. Ensino de história: operação historiográfica escolar. Rio de Janeiro. 2013. 267p. Tese (Doutorado em Educação) – Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz. Regimes de Historicidade: como se alimentar de narrativas temporais através do Ensino de História. In: GABRIEL, Carmem T.; MONTEIRO, Ana M.; MARTINS, Marcus L. B. (Orgs.). Narrativas do Rio de Janeiro nas Aulas de História. Rio de Janeiro: Mauad X, 2016.

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Marcelo Gomes da Silva é doutor em Educação pela Universidade Federal Fluminense. Foi professor da disciplina de Ensino de História para os Anos Iniciais (curso de Pedagogia) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e professor de Ensino de História (curso de História) da Faculdade Fernanda Bicchieri (FABEL).

E-mail:  marcelogomes.dasilva@yahoo.com.br

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