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As professoras e seus tempos: ética e responsabilidade

Nov-dez-jan 2017/18

 

Luciano Mendes de Faria Filho

Possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal de Minas Gerais (1988), mestrado em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (1991) e doutorado em Educação pela Universidade de São Paulo (1996). É professor Titular da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, onde coordena o Projeto Pensar a Educação, Pensar o Brasil – 1822/2022, iniciativa desenvolvida em rede por mais de uma dezenas de instituições universitárias do Brasil. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em História da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: história da educação; história da infância; cultura escolar; história da escolarização; intelectuais e educação no Brasil; pensamento social brasileiro e educação.

 

As professoras e seus tempos: ética e responsabilidade

Luciano Mendes de Faria Filho 
Professor titular da Faculdade de Educação (FaE)
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
lucianom@fae.ufmg.br

 

Em 1918, em conferência às normalistas em Belo Horizonte, o professor Firmino Costa,  consagrado dirigente de instituições de ensino mineiras, defendia que o Estado deveria proibir que as mulheres casadas pudessem exercer a profissão docente. Ou ainda, que a professora que casasse fosse exonerada do cargo. Numa clara defesa daquilo que a bibliografia posterior veio a chamar de celibato docente, o professor argumentava que, uma vez casada, a mulher seria, naturalmente, mãe e que esta função seria incompatível com a de professora pois ambas demandam um trabalho diuturno da mulher. O bom exercício da maternidade importaria no exercício incompleto da docência e vice versa.

Bem sabia Firmino Costa que a docência é uma daquelas profissões em que o trabalho não cessa com o término da jornada formalmente acordada entre o professor e seu contratante. Como as demais profissões relacionadas às atividades do espírito, o trabalho segue-nos onde que quer que nós estejamos, já que, no limite,  é impossível separar sua idealização de sua plena realização. Ou, dizendo, numa outra elaboração, que é impossível ser bom professor se a docência não ultrapassa os estreitos domínios dos portões escolares.

Esse caráter intrínseco   que nossa profissão compartilha com algumas outras profissões mais ou menos tradicionais (como a do pastor, do político ou do psicólogo, por exemplo), não pode nos abster, no entanto, de buscarmos um entendimento maior sobre a constituição, a utilização e, logo, o controle dos tempos professorais. Há, nos vários domínios das ciências da educação colegas que se dedicam a isso, e precisamos conhecer estes trabalhos para que tomemos mais consciência das múltiplas dimensões e  variáveis que nos constituem e nas quais construímos nossas identidades.

No campo da história da educação, que é meu campo específico de estudos, apesar de os tempos escolares terem entrado na pauta da pesquisa já há mais de duas décadas, ainda não há trabalhos específicos sobre a constituição e desenvolvimento dos tempos professorais. Neste sentido, são quase inexistentes também os trabalhos que investiguem as atividades desenvolvidas pelos professores, como professores, naqueles tempos que excedem a jornada formal de trabalho e que, contemporaneamente, são chamadas de “tempos extra classe”.

A título de uma indicação para posterior aprofundamento, eu demarcaria alguns elementos para uma discussão e/ou investigação dos tempos (e do trabalho) extra classe dos professores a partir de algumas variáveis tais como a relação entre estes e os tempos dos alunos e com a materialidade e tecnologias escolares.

No processo de  constituição da escola moderna, na passagem do século XVII para o XVIII, um dos grandes desafios sempre foi o de aumentar o tempo de presença e, portanto, de ensino,  dos professores junto aos alunos. Um dos grandes problemas era o de que, ainda preso às tradições das corporações de  ofício e do mundo da casa, o ensino no âmbito da escola ainda funcionava segundo o modelo individual, com o mestra ensinando a cada aluno, individualmente, mesmo quando ele tinha vários deles sob sua responsabilidade.

Essa dificuldade, depois de várias tentativas, de idas e vindas, somente foi resolvida com a invenção, já no final do século XIX, da seriação do ensino primário. A seriação, ao supor que os alunos de uma turma, sendo da mesma idade, aprenderiam da mesma forma e num tempo mais ou menos igual, permitiu que o professor passasse a dar aula o tempo todo para a turma, e não mais para um pequeno grupo ou para cada indivíduo de cada vez.  Não por acaso, com a seriação aumentou o programa escolar, pois com mais tempo disponíveis para todos os alunos e professor poderia, também, ensinar mais coisas. Do mesmo modo, a seriação também inventou a repetência, uma forma de punir aqueles alunos que, tendo as mesmas condições que os outros, não se esforçaram adequadamente para seguir o ritmo de ensino do professor ou de aprendizagem de sua turma.

No entanto, a seriação não pode resolver outro problema sério que obstaculizava o pleno uso do tempo escolar para o ensino, sobretudo na escola pública: a falta de livros e materiais escolares iguais e para todos. Mesmo nas escolas que contavam com quadros de ardósia ou pintados na parede, que permitiam que o professor não mais tivesse que ditar o “ponto”, era preciso que ele gastasse um bom tempo da aula passando a matéria no quadro.

Apesar de até  muito recentemente persistir  o  problema da falta de livros iguais e em quantidade para todos os alunos, a solução para esse desperdício  de tempo representado pela necessidade de passar o ponto no quadro somente chegaria às escola brasileiras a partir da década de 1940, e mesmo assim de forma muito desigual. Trata-se da possibilidade de reprodução da matéria a ser explicada aos alunos por meio da utilização do mimeógrafo, aparelho inventado nos EUA no final do século XIX, mas somente generalizado para o mundo (nas escolas principalmente!) nas primeiras décadas do século XX.

A solução trazida pelo mimeógrafo representa, no entanto, um bom exemplo de como as tecnologias não necessariamente liberam tempo livre para os seres humanos! No caso dos professores, para que pudessem levar textos iguais e em quantidade suficiente para todos os alunos, eles precisavam ocupar o tempo “extra classe” com o trabalho escolar! Ou seja, o aumento do tempo destinado ao ensino no ambiente escolar somente era possível, de um modo geral, pela intensificação do trabalho e pelo aumento do tempo de trabalho não pago pelo  seu contratante.

Seguindo essa lógica, haveríamos que perguntar como, no percurso histórico de constituição da docência como profissão, veio se dando a ocupação dos tempos extra classe dos professores e, neste mesmo movimento, como nós professores articulamos ações mais ou menos legais, mais ou menos eticamente justificáveis, para não nos submetermos ao alargamento de nossas jornadas de trabalho. Tais indagações inclusive, o que se refere ao tempo presente, deveriam recair também sobre os usos que fazemos dos tempos em que, estando na escola, não estamos compelidos a estar na sala de aula.

Penso que o vaticínio estabelecido por Firmino Costa no início do século XX perseguiu centenas de milhares de professoras ao longo do século XX, não deixando de atingir a um número considerável de professores também que assumiram a responsabilidade com a paternidade. Objetiva e subjetivamente atingidos pelo alargamento do tempo de trabalho e, ao mesmo tempo, pela falta de reconhecimento remuneratório deste mesmo tempo de trabalho e da responsabilidade que a função professoral desempenha em nossa sociedade, muitos dos professores ainda se encontram enredados entre a culpa e as responsabilidades que se refere ao tempo necessário para o exercício da profissão.

No que se refere a essa dimensão, bem como à impossibilidade de se aquilatar de uma vez por todas o tempo necessário para o exercício responsável da docência, uma das saídas possíveis seria o estabelecimento da dedicação exclusiva à docência numa mesma instituição, acompanhada do estabelecimento de uma carreira e de  um salário dignos. Aliás, é isso que se fez quando se quis valorizar a profissão do magistério no ensino superior e mobilizar os professores das universidades públicas para as várias dimensões das atividades universitárias. A outra saída, tão difícil quanto a primeira, é o aumento do cuidado de cada um professor consigo mesmo e com seus pares, para que o tempo ocupado com o trabalho possa ser o máximo possível delimitado e não invada, mais do que o intrinsecamente necessário em nossa profissão, o conjunto de suas vidas.  Agir numa e noutra direção é mais do que uma necessidade, uma exigência para que possamos nos ocupar, com responsabilidade, da recepção das novas gerações neste nosso mundo.

Cláudia Fonseca

Editora-executiva da Revista Brasileira de Educação Básica

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