Manifesto de uma estudante de pedagogia sobre tempos sombrios em um [des]governo

Março 2019

Já faz algum tempo que a conversa com uma amiga não basta, que o consolo de mãe que te olha nos olhos e diz que tudo ficará bem não é o suficiente para acalmar o coração. Tem momentos que o diálogo comigo mesma parece não ter fim. A angústia e a ansiedade pedem desabafo, e, dessa vez, a saída foi transformá-lo em palavras escritas, mesmo quando, na verdade, os sentimentos e os pensamentos formam tamanho desalinho que mesmo palavras no papel são incapazes de organizá-los. Estou aqui para registrar sentimentos, buscando um escape para tanta pressão que parece não ter por onde sair. Escrevo na tentativa de acalmar um pouco a mente e o coração, que, cansados, apontam para um estado de atonia desconfortante.

A verdade é que a realidade está nos chamando para debates e reflexões ininterruptos, necessários e bastante cansativos. Debates esses que, em nosso país, ainda é preciso se esforçar muito para fazer acontecer, que fazem doer os joelhos de quem engatinha, na tentativa de compreender como andar de pé. Que muitas vezes destroem para ser possível construir algum pensamento que pareça mais coerente. Onde quer que eu esteja, os questionamentos não param, há uma vontade incessante de formular entendimentos sobre o que está acontecendo, de buscar um sentido para um cenário que parece não ser real, mas que invade como um cravo no peito. Preciso encontrar algum pensamento que aponte uma saída, uma esperança na humanidade, ou que, ao menos, faça diminuir a tristeza provocada por intensas decepções e desesperanças.

Cerca de seis meses atrás, durante o período das eleições de 2018, em meio ao cansaço físico e psicológico, discutíamos, eu e meus colegas de graduação – por meio da disciplina de Didática, ministrada pela professora Analise – sobre uma abordagem pedagógica que muito dialoga com nosso contexto atual: a sociocultural, também conhecida como abordagem Libertadora. Essa abordagem foi pensada e elaborada por Paulo Freire, esse homem que, além de diversas outras contribuições, é base para inúmeras pesquisas e práticas educativas em todo o mundo. Durante as reflexões, enquanto me preparava para a aula que aconteceria no momento pós-eleição, enxerguei um cenário lastimável, um labirinto trágico que escurecia cada vez mais o caminho que poderia mostrar uma saída. Infelizmente, hoje esse labirinto parece ter muros mais altos enquanto o chão é corroído e se esvai.

O que visualizávamos naquele contexto era um fortalecimento intencional do que há de pior em nós, cegos brasileiros. Víamos a tentativa descarada de alimentar algo penoso que já faz parte da nossa cultura, dos nossos ideais, da nossa educação diária desde o momento em que nascemos… Uma cultura marcada pela colonização do pensamento e dos corpos, que se mantém e se propaga dentro das próprias escolas. Estudamos que somos um país independente, o histórico da colonização fica nos livros, no passado. Relativizamos acontecimentos relevantes inaceitáveis, somos provocados a apenas memorizarmos nomes e datas, nos tornando passíveis de viver e aceitar obscuridades de um sistema opressor.

A verdade é que continuamos mantendo nossa servidão. Temos visão de subalternidade que vê valores no exterior, que provoca comparações sem sentido enquanto nos faz abandonar e destruir riquezas ainda maiores debaixo dos nossos próprios pés. Nos constituímos enquanto sujeitos com base em ideais desumanos, discriminatórios, separatistas, que nos afastam do entendimento do Outro, da elaboração de um convívio coletivo justo e saudável, para todos. Ideais que nos aproximam do egoísmo e da agressão, da maldade e da arrogância. Somos povos com pensamentos e corpos colonizados. A contemporaneidade não é libertadora, a colonialidade está posta ao nosso redor, alimentando a ignorância e a alienação, incentivando a opressão. Forçam-nos a acreditar que uma história única e linear é capaz de nos representar, quando somos uma nação plural, pluri-identitária. Nossos olhos são educados a estabelecer um padrão estreito demais, impossível de nos caber.

Naquele período de pré-eleição, a conjuntura era de uma tentativa de abafar, diminuir, invisibilizar violentamente nossa população, parcelas específicas da nossa gente. Reuníamos forças para conversar, para desenhar e até abraçar se preciso fosse, nos esforçávamos para alcançar pessoas que pareciam não enxergar a situação. Neste momento, a tentativa se materializou e o cenário é ainda mais apavorante. Há projetos de vilões para destruir vidas enquanto controlam marionetes. E ainda é difícil acreditar. Neste momento, morrem irmãos de sangue, irmãos de chão. Morrem irmãos de luta e de resistência. Estão tentando matar nosso maior valor, nossa diversidade. Projeta-se acabar com a humanização, com o respeito, com a pluralidade de pensamentos, de modos de vida. Morre nossa terra, nossa história.

Durante o estudo da disciplina, não existiu outra possibilidade se não a de relacionar as eleições com o que Paulo Freire nos fornece como reflexão. As atrocidades exclamadas com veemência pelo atual presidente do país, as intenções demonstradas em seus discursos desde que iniciou seu processo de candidatura (na verdade, desde que se tornou um homem público), lançadas com uma convicção assustadora, estão sendo cumpridas, e não está sendo pouco a pouco. Diante desse panorama, foi possível perceber que toda sua lógica elaborada, discursada e agilmente efetivada está na contramão do que construímos e acreditamos, enquanto educadores, enquanto humanos, ao nos apoiarmos nos pensamentos compartilhados por Paulo Freire. Claro, não é à toa que ele é (mais) uma persona non grata nas ideologias disseminadas e executadas pelo presidente.

Paulo Freire, um dos maiores pensadores da educação, um ser humano de uma sensibilidade incontestável, baseava sua vontade de justiça social no amor pelas pessoas e pelo mundo. Um educador, reconhecido e homenageado mundialmente, é caluniado, criticado de forma absurda na nossa nação, com fundamentos distorcidos sobre suas propostas e visão de mundo. Ele aponta os furos do sistema, e parece muito incômodo enxergar a justiça abrir o mundo para todo mundo… Será realmente um problema o conhecimento, para consciência das ações que nos são direcionadas, ser compartilhado como ponte para a transformação social? É tão tenebroso repensar os privilégios, considerar que oprimidos não têm que se conformar, perceber que não é preciso ser melhor que o outro? O grito de quem cansou de se calar dói os ouvidos? É tão dificultoso perceber que deve existir dignidade e liberdade para todos serem quem são, e que isso faz com que todos sejam melhores e mais felizes?

O que Paulo Freire entendia como sujeito está sendo esfacelado de forma brutal no nosso cenário sócio-político atual. O educador nos afirma como seres de curiosidade e potencial inerentes, como seres latentes e pulsantes, em busca de experiências e vivências múltiplas. Chegamos ao mundo, aqui estamos e é aqui o lugar para nos formarmos enquanto seres humanos – humanos. Antes de qualquer linguagem, antes de pensarmos existir uma língua escrita, a qual mais tarde necessitará ser aprendida, estamos no mundo e, desde que chegamos aqui, começamos a fazer sua leitura. Nessa apreciação, estamos inteiros, analisamos consciente e inconscientemente tudo a nossa volta. Sentimos. Usamos nossa subjetividade, da mesma forma que somos atingidos pela subjetividade do Outro.

Neste mundo, em que vivemos juntos, eu preciso ter espaço para ser quem eu sou, o Outro precisa de espaço para ser quem ele é. Precisamos ter espaço para manifestarmos verdadeiramente, sem culpa, as pessoas que somos. Assim nos formamos, interagindo, eu, você, ele, ela, em um mesmo mundo. Desde que nascemos estamos em constante transformação, em progressiva descoberta, da vida, do Outro e, sobretudo, de nós mesmos. Durante este processo, com experiências individuais e coletivas, nós – enquanto sociedade – vamos construindo nossos valores, nossa cultura; criamos nossos modos de viver. À medida que interagimos com o meio, com o contexto em que vivemos, refletimos sobre ele e vamos criando respostas aos desafios que dele surgem.

Nossa sociedade, nosso Brasil, por diversos fatores que vêm sendo incorporados desde o seu processo de colonização, possui condutas que sobrepujam maneiras de SER no mundo. Nesse ponto, não me refiro a opiniões críticas às ações de outrem (que já são por si sós preconceitos, julgamentos arbitrários e egoístas). Faço referência a barreiras para com existências. Somos ensinados a ir contra o que não está sobre a escolha das pessoas. Somos ensinados a ser contra pessoas. Todavia, a partir da elaboração crescente de novos princípios, a partir da revisão de nossos ideais, fomos e vamos enxergando, mesmo que minimamente, as atitudes e os pensamentos que nos são arquitetados. Vamos nos reconhecendo enquanto nação diversa, democrática, onde as injustiças podem ser vistas, entendidas e superadas.

Dialogamos com o resto do mundo, debatemos uns com os outros e somamos forças, a partir de pessoas que, juntas, lutam por uma mudança de pensamento. São grupos de gentes que se reafirmam que contribuem para a desconstrução de ideais que insistem em mantê-los à beira do mundo, impedem sua liberdade e seu direito de ser, os marginalizam sobre a negligência de um mesmo povo. São esses grupos que hoje morrem, descaradamente, sem pudor. São esses grupos que o presidente considera como problemáticos e, assim, desgoverna nosso território, os tornando descartáveis e invisíveis.

Nossa cultura, tão rica e diversa, está impregnada de preconceitos, de machismo, de homofobia. Nossa sociedade reproduz crimes, é racista, é agressora. Histórica e culturalmente somos ensinados a ferir existências. Mesmo assim, não deixamos de caminhar. Os apunhalados não cessam a sua luta, buscam mudanças e conquistam, mesmo que a passos lentos e pesados. Pouco a pouco, em conjunto cada vez maior, somos capazes de enxergar as incoerências e os absurdos que são ensinados em nossas famílias, reproduzidos em nossas escolas, em nossas mídias. Os ensinamentos são cruéis, aprisionam e são como obstáculo para o autoconhecimento e a autorrealização social. Mascaram seus desejos, ensinam para você que o que você é, como se sente, está errado. Falam, silenciosamente, como um murmúrio quase despercebido, que você é vazio, impotente, inferior e deve se curvar e aceitar essa posição.

As atrocidades contra maneiras de ser e de viver acontecem desde que o país foi encontrado pelas caravelas. Entretanto, começamos a enfrentar um fortalecimento do que já apontava certo despropósito. As lutas que ganhavam força são silenciadas. Estamos vivendo um tempo em que a diversidade é convidada a desaparecer, pois ela não se enquadra, ela desarmoniza o que se espera para o normal. A violência previamente declarada, inacreditavelmente, ganhou apoio e ação. Parece que deu coragem de gritar mais alto, de olhos fechados, contra toda gente que, de alguma forma, sobrepuja a normalidade imposta. Agora, o discurso eminente há meses torna-se atitude, diariamente são tomadas atitudes contra nós. Sinto dor pelos que sentem inevitavelmente em sua pele todo esse ataque.

As atitudes do atual desgoverno ratificam a concepção da submissão da mulher, da malandragem e da inferioridade dos negros; legitimam a violência e o extermínio dos LGBTQ+, enaltecendo a afronta e a ofensa ao ego heteronormativo. São criadas ainda mais barreiras contra as pessoas com deficiência. Lares são destruídos, são retirados direitos conquistados com tanta luta, de pessoas que estavam aqui antes mesmo desta nação se chamar Brasil… Nossos órgãos que poderiam proteger, impedir minimamente a destruição de gentes, estão sendo diluídos e transformados em ainda mais armas contra o povo. Há um desgoverno que causa retrocesso em um país atrasado. Assassinatos são legitimados, morremos quando não enxergamos mais sentido em um relacionamento, morremos quando seguramos um guarda-chuva, morremos quando caminhamos pela rua com a roupa que escolhemos vestir. Morremos pelo alimento que nos chega à mesa, quando ele existe. Morremos por sermos jovens, por falarmos o que pensamos.

No desnude de tantos sentimentos perversos, o medo ganha uma proporção ainda maior do que o desespero que vi nos olhos dos meus colegas enquanto conversávamos durante as aulas. Nos decepcionamos com familiares, amigos, relacionamentos. Vínculos afetivos próximos são arruinados, e daí adiante tudo poderá ser diferente; a avalanche deixa marcas que, talvez, nem o tempo possa recuperar. As agressões na atual conjuntura mesmo quando não atingem fisicamente, geram perdas inevitáveis no ataque à nossa subjetividade.

São construídos e reforçados muros que não nos separam apenas uns dos outros, mas nos afastam de nós mesmos. Com isso, a dificuldade de nos (re)construirmos, em sociedade, enquanto seres autênticos, conhecedores de nossos sentimentos, aflições e desejos, aumenta. Entender-nos é fundamental, pois nos aponta caminhos para o entendimento do Outro, reconhecendo-o como um sujeito igual, que deseja, como eu, ser feliz. Um racional alienado foi exaltado e nossa completude se perde em meio à esquizofrenia estabelecida. Não enxergo como e o que faz mal para o Outro, também não enxergo o que faz mal para mim.  Todos perdem.

É propagado de forma planejada exatamente o que Paulo Freire propunha desconstruir, uma cultura construída pela aquisição sistemática de experiências humanas elaboradas por meio do armazenamento alienado de informações. Experiências essas que foram estimuladas por um discurso de ódio. O desgoverno se esforça para sermos menos empáticos, mais discriminatórios e ofensivos. O projeto é impedir o entendimento ou a sensibilidade mínima necessária para se viver em comunidade, impedindo a felicidade de gentes. A concepção de Paulo Freire é de que as práticas humanas, que constituem nossa cultura, devem ser feitas de maneira crítica e criadora, não reprodutora e alienada. A consciência sobre os nossos atos, sobre nossa participação na sociedade é substancial, indispensável. Apenas assim podemos ser capazes de desmistificar a realidade que nos é imposta, de construir condutas justas e humanas.

A desmistificação está sendo ainda mais mascarada, até mesmo quando o discurso hostil – que faz as pessoas acreditarem quase hipnoticamente que o Outro é parte do seu problema e que, por isso, devem repugná-lo, destruí-lo – está sendo transformado em ações, a todo momento, para quem quiser ver. É na busca pela libertação que nos libertaremos! E isso deve ser estimulado através da educação, que hoje ainda mais fortemente também sofre golpes; não é difícil perceber os motivos. É na consciência da nossa estrutura social de relação entre oprimidos e opressores que poderemos compreender e nos comprometer verdadeiramente com nossa realidade, possibilitando alterá-la. Apenas na compreensão das discriminações e dos problemas estruturais da nossa sociedade seremos capazes de nos realizar no mundo com nosso potencial máximo, tendo como referência nosso padrão interior, não um exterior impossível de alcançar.

O ódio nos afasta uns dos outros, nos afasta de nós mesmos. Esse sentimento está sendo legitimado, incentivado, praticado dissimuladamente, orgulhosamente. Ainda é inacreditável. Mas precisamos acreditar. Há gente em quem podemos confiar, que está vendo, como eu e você, toda a sujeira no ar. Há quem podemos ajudar. E são a essas pessoas que devemos nos unir, para elas que devemos olhar.

Nos resta sentir a força da luta, quem morre ainda estará sempre presente. Precisamos fazer com que essa semente do caos germine e que dela floresça uma plantação verde, inteira de união e força, de vontade de mudanças. A humanidade precisa se humanizar. As pessoas estão com medo, porque o ódio cresce. Mas, mesmo que possa não parecer, o amor e a verdade prevalecem. Parafraseando Mahatma Gandhi, por mais que pareçam invencíveis, os tiranos e os assassinos sempre caem no final.

Algumas mãos que antes podiam estar atadas, agora não soltam as de ninguém. A união continua fazendo a força, e, se eles são muitos, nós devemos ser ainda mais. Resistiremos!

lyssa duarte

Lyssa Duarte Lázaro

Estudante do 5º período do curso de Pedagogia na Faculdade de Educação da UFMG. Tendência a trabalhar com arte e educação, na perspectiva do Teatro como formação complementar.

Contato: lyssaduarte@hotmail.com

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