Creche e/na universidade: Duas reflexões e várias preocupações- por: Marcia Aparecida Gobbi e Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento

Marcia Aparecida Gobbi

Licenciada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo (1992), mestrado em Educação, na área de Ciências Sociais, Cultura e Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1997) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Atualmente é professora doutora da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Educação Infantil e ensino de sociologia. atuando principalmente nos seguintes temas: educação infantil e infância, fotografia e desenho de crianças pequenas e ensino de sociologia.

Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento

Pedagoga pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (1981), Mestre (1997) e Doutora (2003) em Educação pela FEUSP. Pós-doutorado (sociologia da infância) na University of Sussex, UK (2014). Professora Livre Docente Associada (2016). Desde 2007 é docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo – FEUSP. Trabalha e pesquisa os campos da Educação Infantil, com destaque à creche, e da Sociologia da Infância. Coordena o Grupo de Estudos e Pesquisa Sociologia da Infância e Educação Infantil (GEPSI).

Creche e/na universidade: Duas reflexões e várias preocupações

  

Marcia Aparecida Gobbi
Professora doutora do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
mgobbi@usp.br

Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento
Professora associada do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo
letician@usp.br

 

 A desativação de creches da USP como perda de espaço de estágio, pesquisa e parceria

Mais como testemunho do que como pesquisa, cabe dizer que, no final da década de 1970[1], estudantes da Universidade de São Paulo (USP) empreenderam diferentes frentes de luta, desde o enfrentamento possível às forças da ditadura, representadas, no município de São Paulo, pelas tropas comandadas pelo Coronel Erasmo Dias, passando pela reconstrução dos centros e diretórios acadêmicos, efeito da reativação do movimento estudantil, e enfatizando as melhores condições de ensino e a universidade pública para todos. Em meio a essa movimentação, havia a demanda por creches na universidade que fazia parte de um contexto maior, relacionado ao Movimento de Luta por Creches, e parecia ser conteúdo principalmente de funcionárias administrativas e docentes, representando, para as alunas, a possibilidade de maior participação nas diferentes possibilidades abertas pela experiência na universidade pública, com garantia de apoio pedagógico e segurança para suas crianças.

Se for certo que recortamos na memória aquilo que foi significativo e que podemos reconfigurar as lembranças de acordo com seu maior ou menor significado, é também certo que a criação das creches da USP, há mais de 30 anos[2], representou, mais do que o apoio às mulheres na condição de mães, mas também um salto qualitativo no que diz respeito à educação de crianças pequenas, garantindo o seu direito à educação – de qualidade – desde o nascimento. Nessa linha, foram publicados livros[3] e vídeos[4] sobre o trabalho das creches, além de organizados eventos[5] de estudos e de discussão do projeto pedagógico que era construído em seu interior. No entanto, desde 2015, o projeto das creches da USP se viu ameaçado pelo impedimento de novas matrículas de crianças, que, se, em princípio, não comprometeu a proposta pedagógica, viu a redução de crianças atendidas, a realocação das profissionais, a reorganização dos espaços e, no início de 2017, a desativação da Creche Oeste, do campus Butantã, São Paulo.

Em relação à Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), principalmente ao curso de Pedagogia e à formação de professores de Educação Infantil, esse movimento de fechamento gradativo das creches, além de propiciar a constatação da perda de trabalho de vanguarda, alinhado ao que de mais avançado tem acontecido na educação de crianças pequenas, constitui a eliminação de rico espaço de estágio, na ruptura com a possibilidade de parte da equipe apresentar e discutir seu trabalho nas aulas da disciplina obrigatória Educação Infantil, como era feito já há nove anos[6], no desaparecimento de campo privilegiado de pesquisa[7] sobre os estudos da infância e de formação de professores.

Parece interessante, aqui, reforçar que, ainda que a creche possa ser entendida como um benefício a funcionárias, essa é a menor dimensão para a compreensão e a validação dessa instituição. Como já dito em outras oportunidades[8], tem constituído uma forte referência no campo dos estudos da infância o trabalho desenvolvido com as crianças, a partir de uma pedagogia da infância; o olhar sobre a escuta das crianças, capaz de desencadear projetos de educação interdisciplinares, em resposta às suas demandas; e o compartilhamento dessas experiências com pesquisadores nacionais e internacionais, docentes e discentes da USP e de outras universidades, professores e professoras de diferentes redes públicas, que são recebidos para visitas agendadas. Nessa perspectiva, tomando em consideração os pontos aqui apresentados, qual será a dimensão da perda de uma unidade? E de todas?

 

Pelas ruas da USP havia crianças: o adultecer da paisagem e a possível perda de um projeto de sociedade com as creches

Fotografia tirada na Creche Oeste da USP em Oficina de Fotografia Artesanal Pinhole orientada por Maria Stello Leite, doutoranda da FEUSP.

Ao caminhar pelas ruas e avenidas da conhecida USP, campus Butantã, onde está situada a Creche Oeste, diferentes paisagens sonoras vão nos tomando: automóveis de vários tipos, estudantes e funcionários de diferentes institutos e faculdades em passos, ora mais rápidos, ora menos apressados, buscam seus destinos. Juntos, fazem arranjos que compõem o cotidiano universitário. Mas não é raro ouvir alguns deles que, dissonantes, chamam a atenção, rompem com os desígnios desse dia a dia. Referimo-nos às crianças das creches que entoam canções, lidam umas com as outras, choram, gargalham. Mas há algo ainda mais a destacar. Elas têm como prática frequente sair em caminhadas pelos espaços da USP e com seus ritmos implicam muitos às suas vistas e visitas a distintos espaços. Espaço concebido, segundo Henri Lefebvre (2016), em suas dimensões mentais, tocantes ao que é percebido, concebido, representado e àquelas sociais no que é construído e projetado. Trata-se de uma universidade e, portanto, poderíamos nos distrair confiantes, esperando um espaço exclusivamente adulto. No fim de contas, muitos têm se perguntado: para quê crianças nesse universo de estudos e pesquisas de adultos e com adultos? Contudo, somos arrebatadas por outras questões. Quais projetos de infância, de universidade e relações sociais estão sendo evidenciados a partir da creche? É possível compreendê-las também pelo ângulo de uma projeção social mais ampla, com representações peculiares à infância? É possível alcançá-la a partir da luta pelo direito à cidade, ou parte dela, abarcando a universidade como espaço a ser apropriado por todos e todas em extensão à cidade em que se situa? Trata-se de complexa temática que será apenas tocada ligeiramente aqui. Objetiva-se apenas dar continuidade ao já exposto, aliando a isso outros modos de pensar a importância da creche na Cidade Universitária para não estendermos a reflexão à sua relevância para toda a sociedade em geral: comunidades, famílias e, claro, para as próprias crianças frequentadoras.

Como já salientado, inegavelmente a desativação das creches resultará em profundas perdas: pesquisa e extensão, alvo de projetos de estudantes e professores que envolvem também escolas de redes públicas de ensino e não somente estudantes da USP. Vimos nisso pontos fundamentais para a constituição de uma universidade e dos processos formativos dos envolvidos em distintas áreas e que encontram certo comprometimento relativo à qualidade que se pretende obter com uma formação menos aligeirada e mais participativa. As mães, estudantes e/ou trabalhadoras, lutadoras históricas pelo direito à creche e à creche universitária, são fortemente prejudicadas pela desativação desse local de vida entre as crianças. Porém, outras implicações somam-se a essas. Trata-se da compreensão de práticas democráticas no espaço público que envolvam também as crianças presentes em qualquer território, assim, incluímos a universidade.  

Na década de 1970, Richard Sennett (2016) apontava para a perda do reconhecimento de universos para além daqueles em que vigoram relações pessoais. Permite perceber, cada vez mais claramente, que o que há para afora, na ordem pública, fora obliterado. Retiramo-nos ou fomos retirados do mundo de relações entre os diferentes e nos comportamos como se as agruras de um cotidiano agressivo e tirano fossem naturais. Há forte relação disso com a luta pela manutenção das creches em diferentes focos e mostras de resistência, já que sua presença motiva relações de caráter horizontal na vida pública, ou, ao menos, interpela o atual estado e as condições em que nos encontramos nas esferas econômicas, política e social. Ocupações presentes têm esse mote resistindo à unilateralidade imposta às relações de uso desse espaço.

A desativação de creches, de uma ou mais delas, promove vagarosamente alterações nas paisagens físicas e de relações encontradas na universidade. Justifica-se: ao transitarem por suas ruas e avenidas fazendo uso de seus diferentes espaços, a partir da creche, as crianças provocam modos distintos de ver o outro e aprender com ele. Meninas e meninos em caminhadas pela Cidade Universitária podem provocar deslocamentos naqueles que com elas se deparam. Percorrem-na desde bebezinhos, tendo-a como local de encontros e confrontos, algo de que carecemos, quando mergulhados numa tessitura puída num cotidiano temperado com invariáveis e óbvios sabores. O direito às diferenças de idade, gênero, credo, etnia e classe social, comuns aos espaços públicos citadinos, consiste em usos e aprendizados que podem ter início numa creche universitária e em suas conexões com o entorno. Sua presença é resistência e luta pelo direito à cidade, em que se pode esboçar conjuntamente projetos de sociedade e cidades apropriadas para todos também a partir da universidade. E de suas creches, por que não?

Referências

MELLO, A. M. Muitos olhares: as creches como lugares de construção de culturas, relações e histórias. In: ______. O dia a dia nas creches e pré-escolas: crônicas brasileiras. Porto Alegre: Artmed, 2010. p. 166-179.

SENNETT, R. O declínio do Homem público. Rio de Janeiro: Record, 2016.

[1] Fui aluna do curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) entre 1976 e 1980.

[2] A Creche Central, situada no campus Butantã, de São Paulo, foi criada em 1982, seguida pela Creche Carochinha, de Ribeirão Preto, em 1985.

[3] Como exemplo, os livros: Creches: criança, faz-de-conta e cia, de Zilma de M. Ramos de Oliveira e Maria Clotilde Rosseti Ferreira; Os fazeres na Educação Infantil, de Maria Clotilde Rossetti Ferreira e Ana Maria Mello; O dia a dia nas creches e pré-escolas: crônicas brasileiras, de Ana Maria Mello; Histórias da Carochinha: contribuições para o ensino, a pesquisa e a extensão de uma creche universitária, de Débora Cristina Piotto, Letícia de Almeida Martins e Bianca Cristina Corrêa.

[4] Elaborados em parceria com o Centro de Investigações sobre Desenvolvimento Humano e Educação Infantil (Cindedi), da Universidade de São Paulo de Ribeirão Preto (USP-RP).

[5] Por exemplo, o “I Encontro Faculdade de Educação e Creches/Pré-Escolas da USP/SP: parcerias e perspectivas para Educação Infantil”, realizado nos dias 17 e 18 de setembro de 2015, na FEUSP.

[6] As professoras da Creche Oeste e sua diretora apresentavam aos estudantes alguns dos projetos elaborados e desenvolvidos na instituição a partir da escuta das crianças.

[7] É possível citar alguns dos estudos realizados na FEUSP: “Creche e família na constituição do eu: um estudo sobre as imagens e as representações de crianças no terceiro ano de vida na cidade de São Paulo”, tese de Maria Letícia Barros Pedroso Nascimento; “Conflito na Educação Infantil: o que as crianças têm a dizer sobre ele?”, dissertação de mestrado de Bianca Rodriguez Corsi; “A formação de professoras em uma creche universitária: o papel da documentação no processo formativo”, dissertação de mestrado de Flaviana Rodrigues Vieira; e “A documentação pedagógica e o trabalho com bebês: estudo de caso em uma creche universitária”, dissertação de mestrado de Juliana Guerreiro Lichy Cardoso.

[8] Ver Mello (2010).

Luiza Oliveira

Editora Executiva da Revista Brasileira de Educação Básica

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