Conversas com um jovem professor, por Maurício Sousa Matos

Maurício Souza Matos

Licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Editor Executivo da Revista […] Três Pontos. Bolsista de Iniciação Científica na Faculdade de Educação da UFMG. Professor voluntário de Sociologia nos Pré-vestibulares Comunitários Vila-Marçola no Aglomerado da Serra e no Doar Educa na Ocupação Dandara.

 

Conversas com um jovem professor, de Leandro Karnal

Maurício Sousa Matos
Licenciando em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Bolsista de Iniciação Científica pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig)
mauriciosousamatos@gmail.com

 

Ousado, sincero, bem-humorado, envolvente e subjetivo descrevem o livro em pauta nesta resenha, uma vez que, a partir do ato de ensinar, das vivências e experiências ligadas ao cotidiano da sala de aula, evidencia como lidar com a escola e todos os seus sujeitos e como aprender com erros e acertos. (Re)conhecido por suas vivências, Leandro Karnal é historiador e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) na área de História da América, com experiência de mais de trinta anos na área da educação, do ensino fundamental até a pós-graduação. O livro tem 142 páginas e se organiza em oito capítulos, nos quais são apresentadas experiências concretas como ponto de partida para a reflexão e o encorajamento dos jovens professores, sendo que cada capítulo conta ainda com indicação comentada de filmes.

“A aula-introdução ao jogo e suas regras” é o capítulo que inaugura as provocações a partir da sala de aula, sendo essa uma tarefa a se enfrentar, uma vez que esse local é marcado por silêncio ou barulho, a depender das circunstâncias, tarefa que compreende conhecer os relatos da sala dos professores. O equilíbrio entre familiaridade e distância deve marcar uma atividade que não pode se dar por amizade, e ainda menos por inimizade. Para Karnal, uma boa aula tem quatro linhas de força: você, o conteúdo, as condições externas e o aluno. De modo ousado, Karnal assevera haver poucos bons professores, mas muita gente que dá aula bem, sendo o que os diferencia a “capacidade de olhar para seu aluno e se sentir junto com ele”. Nesse jogo de cenas, somos provocados a entender a sala de aula em diálogo com o teatro, à medida que sedução, encanto e realização contagiam e orientam espectadores. A atuação docente na condução de uma boa aula perpassa o controle dos momentos (rápidos ou lentos) e o uso atento e consciente do tom da voz, do deslocamento e das gesticulações em sala. É necessário pensar a aula como uma obra planejada, tendo ponto de partida e de chegada, em constante análise de erros e acertos, explorando a escrita dessa história que se constitui e aperfeiçoa a prática cotidiana de um bom professor.

Baseado em cinco erros específicos apresentados no capítulo “As pedras da nossa estrada”, Karnal descreve como não se podem tomar as expressões dos alunos de modo pessoal, não lendo essas expressões como ataque e contra-ataque. É necessário superar o próprio orgulho, em prol da valorização do espaço do aprendizado. É fundamental observar a relação adolescente-adulto, sendo no primeiro natural e no segundo um equívoco a ausência de maturidade. Um segundo erro é o ego, objetivo em si mesmo, e não no sujeito da aprendizagem. O terceiro erro se manifesta durante a chamada dos nomes em sala de aula e de expressões faciais a perguntas, pois “ser um bom professor significa até tentar controlar seu olhar ou outros indicativos de desagrado não verbais”. O quarto erro é que o professor não é um aluno mais adiantado ou aquele que sabe mais e por isso é melhor, mas aquele sujeito mais apto profissionalmente para o exercício do trabalho docente. Por último, o quinto erro perpassa o exercício da paciência no desenvolvimento que a aprendizagem e o conhecimento demandam, e em não abandonar o aluno por comportamento ou nota.

No capítulo “A tal da criatividade”, Karnal aponta o uso da tecnologia como ferramenta que pode auxiliar, facilitar e diversificar a aprendizagem, mas isso por si só não define, por exemplo, o uso de slides como uma aula criativa. A criatividade inicia pela surpresa, ser criativo tende a extrapolar. Acerca de um método criativo, Karnal trabalha paradoxalmente sua possibilidade e impossibilidade, mas o pensa como um propulsor, uma espécie de tecla start. Sendo pertinente, apresenta diferentes motivações e abordagens na tentativa de contemplar o maior número de alunos. É necessário transmitir aonde se quer chegar, sem embaraços aleatórios ou erráticos.

O entorno do magistério em “Pais, colegas e diretores”, quarto capítulo do livro, aborda a necessidade de compreender e se atentar aos pais durante as reuniões, extraindo, assim, explicações acerca dos alunos e até da necessidade em se adequarem conteúdos e linguagem. Essa interação com os pais deve ser lastreada por calma. Acerca da direção e coordenação, Karnal manifesta sua quase total insatisfação com tais cargos. Sobre colegas, mais especificamente a sala dos professores, exercitar o silêncio sob prudência é fundamental para esse convívio que implica amizades duradouras, tolerância, negociações, diálogos diplomáticos, inclusive medidas mais energéticas.

“Apertem os cintos, chegou o dia da prova”, por sua vez, define a avaliação como o episódio marcante que evidencia os papéis de professor e aluno. A avaliação não pode ser um revide, uma vingança, um espaço para se resolver problemas. A preparação da prova contempla algumas dicas acerca da relação tempo-conteúdo, do nível de dificuldade, do diálogo com as aulas, da clareza nas indagações, além de revisões atentas ao fim. Sobre a aplicação, que perpassa preparação da sala, expor as regras, além de pensar a fraude não só do aluno, mas também da utilidade de uma prova repetitiva desprovida de elaboração reflexiva e crítica, passível de ser respondida com breves trechos extraídos de livros ou da internet. Karnal, ao provocar sobre a mediocridade (assumida) no magistério com péssimos professores de aulas ruins, mas que dando boas notas são mantidos, inclusive pela escola, assume ser a prova um dos momentos de esforço da atividade profissional em que “elaborar, aplicar, corrigir e devolver comentando é coisa para profissionais”, ou seja, todo esse esforço só pode ser próprio de um bom professor, que privilegia boas aulas. Por fim, o conselho de classe é apresentado, um momento ímpar que exige o máximo de escuta, de análise criteriosa de situações, de sigilo, de trato respeitoso para se tomar a decisão mais equilibrada possível, sendo, em caso de dúvida, absolver a melhor alternativa.

Karnal considera no capítulo “Tecnologia e sala de aula” que o sentido da aula continua sendo a aprendizagem, e a tecnologia se configura como uma ferramenta que contribui para esse processo. É importante não ignorar o ambiente possibilitado pelas novas formas de relacionamento e comunicação virtuais, sobretudo (re)elaborando e adotando possibilidades de diálogo com as novas ferramentas, utilizando-se da internet como aliada do ensino, sem com isso exigir meros trabalhos descritivos, mas pensando-os dotados de problemáticas e reflexões que estimulem e ampliem o aprendizado com significado pelos alunos. Karnal lembra da existência de uma mudança estrutural que reflete o uso dessas novas ferramentas com “alunos muito rápidos na percepção das coisas, muito atentos à imagem e com dificuldades na concentração prolongada” que exigem novas atitudes que contemplam explicações mais pormenorizadas, sintéticas e objetivas, intercaladas com uso de outros recursos, inclusive dos sensoriais, como parte da explicação. Ao mesmo tempo, o autor sugere que os professores estimulem a concentração dos alunos, pois normalmente a internet “seduz, de forma apática e com mais frequência, mais do que ensina ou desafia” e, desse modo, utilizá-la como ferramenta não implica em reproduzir o que tem de ruim, limitado ou deformador, ou seja, ela não deve ser demonizada, nem tampouco divinizada.

O penúltimo capítulo, “Disciplina”, é de autoria de Rose Karnal, que narra sua escolha ainda precoce aos cinco anos de idade de ser professora. Perpassando a inexperiência nos estágios e dos distanciamentos próprios entre teoria e prática, a (in)disciplina se apresenta como uma das principais manifestações na sala de aula que requerem, além da atenção do professor, um manejo quase acrobático para instaurar uma autoridade sem, contudo, autoritarismo. É ainda consenso inexistirem fórmulas de resolução dos problemas disciplinares. É válido o bom senso. Reconhecer os erros é um sinal de maturidade, além de ter domínio do ambiente, conhecimento das reações, atentando-se aos sinais emitidos, organizando o espaço deixando-o agradável, como também empregar cuidadosamente punições e evitar a conivência com violências. Para Rose Karnal, o carisma do professor contribui pra instaurar a disciplina em sala de aula. Ao fazer o que gosta e bem, o bom professor que ouve, elogia, respeita e tem bom humor contribui pra esse processo.

“Por que continuo sendo professor?” revela, segundo Karnal, como essa indagação expressa existir algo bom e, portanto, merece permanecer, sendo assim “permaneço sendo professor porque o total de coisas boas supera a soma das ruins”. Diante de tudo isso, não faltam sinônimos de condições, situações ruins próprias do magistério, desde ganhar mal até as reuniões tediosas e inúteis. Além disso, a padronização de comportamentos sob “rótulos” dados aos alunos, a diminuição da vontade pela mudança radical dos jovens professores com o passar do tempo, o cansaço estrutural com a repetição de rotinas exaustivas. Ser professor diz respeito não só a gostar de estar entre pessoas e lidar com alunos, mas, sobretudo, orientado pela ideia de estar “transformando e sendo importante na vida deles”, ao considerar “que o conhecimento transforma” a vida do outro, do aluno, e também a de si próprio de modo peculiar.

Karnal, ao descrever suas experiências, tendo como propósito dialogar com os jovens professores acerca de suas angústias, tristezas, felicidades, lembranças, erros e acertos, traça um rumo possível de aprendizado a partir de décadas de docência, de diversas reuniões, da sucessão de salas e inúmeros alunos, indicando-nos como um bom professor, alguém que não desiste tão facilmente, que não se frustra com as condições de longe ideais, que é atento, entusiasta e rigoroso com uma educação que explore as mais variadas visões de mundo, estimule os mais remotos sentimentos, as mais intensas habilidades e os desejos íntimos pelo aprender e conhecer, ainda que tensa e cheia de percalços, é forte, potente e possível.

 

 

Cláudia Fonseca

Editora-executiva da Revista Brasileira de Educação Básica

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