Computador

Contribuições da formação continuada para a inclusão digital de professores do ensino básico

Out - Dez / 2016
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Paulo Alexandre Oliveira

Graduado, mestre em matemática e advogado. Atualmente leciona (coordenador de estágio) no curso de licenciatura em matemática-PARFOR (UFT), conta com experiência no ensino fundamental e médio por 5 anos. Pesquisa sobre o uso das novas tecnologia na educação matemática.

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Nercione Aires da Silva

Acadêmico formando do curso de licenciatura em matemática – PARFOR (UFT), lecionou por 3 anos em escola da zona rural do Tocantins.

Introdução

Os recursos tecnológicos estão presentes, cada vez mais, na sociedade. Na educação isso não é diferente, nos últimos anos muitos estudos mostram a importância de integrar esses recursos às aulas, para oferecer uma formação completa aos alunos.

Na Escola Municipal Maria Angélica Martins de Sousa, situada no Município de Ipueiras, na região centro-oeste do estado de Tocantins, onde foi realizada a pesquisa, a realidade é outra, nem mesmo as tecnologias básicas foram adequadamente incorporadas, os professores planejam usando caderno e caneta e na sala de aula usam somente livros didáticos, quadro e pincel. Constatou-se que nem mesmo o retroprojetor nem o data show (projetor multimídia) disponíveis na escola são utilizados, eque vários professores desconhecem as novas tecnologias da informação, além de a unidade escolar não ter laboratório de informática.

Este artigo relata uma experiência bem-sucedida de contribuição entre a universidade e a escola da zona rural, que, por intermédio do acadêmico em estágio supervisionado, ofertou um curso de formação continuada para os dezesseis professores que trabalham na escola, com o objetivo de qualificá-los para o uso de Laptops do programa “Um computador por aluno” (UCA). Foi necessário detectar o real motivo que impedia o uso dos recursos tecnológicos, principalmente dos laptops, para isso, elaborou-se questionário eletrônico. A programação da formação continuada obedeceu às necessidades dos professores, as ações foram rigorosamente pensadas com base nas respostas do questionário e de conversas informais, pois o principal objetivo era atender às necessidades dos professores.

Referencial Teórico 

Os avanços da tecnologia mudaram o ambiente em que vivemos.Para percebermos as mudanças, basta olharmos ao nosso redor, por exemplo, as formas de comunicação, os transportes, a maneira de produzir produtos, o entretenimento das pessoas, entre outros (CASTELLS, 2009). Paradoxalmente, o ambiente escolar ainda não absorveu, de modo satisfatório, os benefícios oferecidos pela tecnologia.Em geral, as escolas utilizam timidamente os recursos tecnológicos, mas o uso do computador como recurso pedagógico, em particular, tem sido objeto de muitas pesquisas na área da educação (SAMPAIO; ELIA, 2012).

A tecnologia já faz parte do nosso cotidiano e, indubitavelmente, deve ser incorporada no processo de ensino e aprendizagem, uma vez que a escola tem o papel de formar o cidadão para vida. Segundo Marco, Tavares e Freitas (2013), no Brasil, diversos pesquisadores estudaram a inserção da tecnologia, principalmente a computacional, na formação do professor, e destacam que entre 1996 e 2002 ficou evidenciada a ausência de recursos tecnológicos na formação inicial,que o professor deve ser motivado pela escola a utilizar o computador e a relevância de investir na formação de professores para que seja consolidado o uso da tecnologia na sala de aula.

Nesse contexto, uma vez que a formação de novos professores visa a abordagem tecnológica que sociedade demanda,o estágio é uma das etapas mais importantes na vida acadêmica, pois é durante esse evento que o futuro professor pode colocar em prática o conhecimento adquirido durante a sua vida acadêmica, as teorias sobre a prática pedagógica e, ao mesmo tempo, é o momento de conhecer o cotidiano escolar, situado nos contextos sociais e culturais (SANTOS et al., 2015).

Mesmo assim, a falta de experiência pode amedrontar os novos acadêmicos,principalmente aqueles que ainda não tiveram nenhum tipo de contato com a sala de aula.É tarefa das universidades preparar os estudantes para esse momento, devem ensinar como lidar com as dificuldades que podem surgir no cotidiano escolar (ALMEIDA;PIMENTA, 2014). Nenhum professor está ‘pronto’ integralmente quando termina sua graduação; durante a docência o professor precisa se aprimorar e dar continuidade aos estudos. Giordan, Hobold e André (2014) observam que, no início da docência, fica mais clara ainda a importância da formação continuada, pois é o momento no qual o professor socializa-se com outros profissionais e troca informações que podem aumentar intensamente seus conhecimentos.

Bittar (2000) aponta que, geralmente, a responsabilidade de atualização e preparação para o uso de novas tecnologias na sala de aula é tanto do professor quanto do gestor da escola.Além disso, a autora observa que a falta de uma formação adequada dos professores, de um modo geral, implica o uso da tecnologia – o computador, por exemplo– de forma específica, o que compromete o desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem.

O Governo Federal, na tentativa de potencializar o uso da tecnologia no processo de ensino-aprendizagem nas escolas públicas, criou o projeto Um Computador por Aluno – UCA – (ARAÚJO; CHAVES, 2015) e, depois, o Programa Um Computador por Aluno – PROUCA – (ANDRADE; RAMOS, 2014), que tem por finalidade a promoção da inclusão digital, pedagógica e social mediante a aquisição e a distribuição de computadores portáteis em escolas públicas (SAMPAIO; ELIA, 2012). Apesar do investimento na aquisição dos computadores, faltou investir na capacitação dos professores/gestores/técnicos, em especial daqueles que estão na zona rural,conforme se constatou em loco e em consonância com Schneider, Santarosa e Conforto (2011).

Entre muitos fatores, a formação continuada do professor merece uma atenção especial,para que a tecnologia seja incorporada ao ambiente escolar; boa parte dos professores segue o modelo tradicional de aula – usando apenas os livros didáticos (DOURADO et al., 2014). Para os professores da zona rural essa formação torna-se indispensável e, muitas vezes,é a única alternativa para a sua inclusão digital, em decorrência do difícil acesso à tecnologia e formação tecnológica, como cursos de informática, por exemplo.

 

Questionário preliminar 

O questionário estruturado, composto por onze perguntas, teve como principal objetivo detectar a estrutura disponível na escola para o uso de computadores, o conhecimento prévio dos professores sobre o uso desse recurso e os desejos deles  quanto ao uso da tecnologia (ALVES, 1991).

Mais da metade dos professores possui computador pessoal, a maior parte deles tem interesse em utilizar, de algum modo, a tecnologia em suas aulas, mas,por não dominarem razoavelmente a tecnologia, a maioria acaba não utilizando, conforme pode ser constatado no Gráfico 1.

Perguntas:

1 – Você tem computador (notebook/tablet) de uso pessoal?

2 – Você gostaria de usar algum tipo de software nas aulas de matemática?

3 – Tem utilizado o computador para estudar, elaborar aula ou auxiliar na metodologia da aula?

Gráfico 1 – Respostas do questionário

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Fonte: nossa autoria.

Pontos negativos que merecem atenção nas respostas das demais questões: todos os dos professores responderam que nunca participaram de capacitação na área de informática,a rede de ensino em que trabalham jamais ofereceu um curso sobre isso, a escola não tem laboratório de informática, nem acesso à internet, nem disponibiliza um técnico para auxiliá-los no uso do computador (igualmente observado por SCHNEIDER; SANTAROSA; CONFORTO, 2011).

 

Formação Continuada 

Com a proposta de abordar o básico de computação, apresentar o sistema operacional dos laptops, manusear os software e ensinar como trabalhar com os editores de textos e planilhas, foi proposto um curso aos professores, dividido em três etapas e executado em sete encontros, de 1h e 30min de duração cada;em função da falta de laboratório de informática, utilizou-se a biblioteca da escola para a realização dos encontros.

Apresentação 

Nos encontros, foram explicados os objetivos da formação, a metodologia e apresentados e sugeridos alguns recursos tecnológicos que podem ajudar na sala de aula, tais como:vídeos com dicas sobre recursos tecnológicos e sobre a tecnologia a favor da aprendizagem, computadores,data show, sites, e software temáticos.

Os participantes foram instigados a falar, elaborar perguntas, compartilhar algum conhecimento e puderam dar sugestões. Em seguida, foram apresentados alguns estudos sobre o uso da tecnologia na sala de aula – artigos, monografias, livros, dissertações, entre outros.

Conhecendo os Laptops 

No segundo encontro, os professores tiveram o primeiro contato com os laptops, foram apresentadas as principais características das máquinas e eles foram instigados a ligar e manusear os equipamentos.Dois vídeos instrucionais foram utilizados nesta etapa: Laptop Educacional da UCA, e Netbooks educacionais – funções básicas (parte I).

Os professores encontraram muitas dificuldades para manusear os aplicativos apresentados, o que já era esperado, pois o questionário já havia deixado claro que muitos eram leigos nessa área tecnológica. Foi necessário iniciar a parte prática com muita calma, por exemplo, explicando como usar o mouse, a tecla direita e esquerda abaixo do mouse e o teclado.

Intercalando a teoria com a prática aos poucos, foram repassados os conhecimentos de informática básica, por exemplo, informações sobre um sistema operacional, para que serve, em particular foi apresentado o sistema Linux, que era o sistema operacional dos laptops em questão.

 

Figura 1 – A. Alguns Laptops utilizados na formação continuada. B. Vista frontal do Laptop doado pelo programa UCA.C. Acadêmico estagiário ministrando o curso na biblioteca da escola.

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Fonte: nossa autoria.

Software: editores de texto e planilhas 

A primeira atividade prática consistiu na elaboração, digitação e formatação de uma avaliação.Primeiro, apresentou-se o editor de texto –OpenOffice Writer– que é desenvolvido pelo sistema operacional MINI MANDRIVA. Ao final dessa etapa, os professores estavam aptos a elaborar uma avaliação simples, com figuras e fórmulas matemáticas.

Na segunda atividade, trabalhou-se a manipulação de planilhas.De forma resumida, foram apresentados o software OpenOffice Calc e os principais comandos de fórmulas e formatação – devido aos conhecimentos adquiridos na atividade anterior, em relação à formatação,surgiram poucas dúvidas nesta etapa. Na parte prática, foram elaboradas tabelas com fórmulas de soma (lista de compras), potências e médias aritméticas.

Figura 2– Exemplos de atividades. A. Lista de compras com a fórmula de soma. B. Resolvendo potências com fórmulas

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Fonte: nossa autoria.

 

Apresentamos também alguns sites e vídeos com dicas e exercícios em planilhas eletrônicas utilizados no curso: Como usar planilhas no Excel para as aulas de matemática?, Atividades interativas feitas no Excel, Construindo e explorando gráficos de coluna e Gráficos no Excel na aula de Matemática.

 

Resultados 

O Estágio supervisionado atendeu de forma efetiva os seus objetivos, tanto o estagiário quanto os alunos e professores da educação básica interagiram mutuamente e, dessa forma, contribuíram significativamente com a realidade local da escola. A formação continuada foi produtiva, pois confrontou a teoria e a prática, respondendo à demanda dos professores quanto as suas habilidades didáticas com o uso das tecnologias digitais.

No eixo humanístico, foi gratificante para o acadêmico estagiário e para professor orientador poder contribuir para a inclusão digital de professores, no sentido de orientá-los quanto ao uso da tecnologia no processo ensino e aprendizagem.

Conclusão

Concluímos que o estágio supervisionado é, de fato, um dos principais momentos da formação acadêmica.Quando bem executado, o resultado é motivador e pode contribuir de forma significativa com a realidade local das escolas, principalmente, aquelas situadas em zonas rurais.

Precisamos nos inteirar de que existe uma grande lacuna no conhecimento tecnológico dos professores da educação básica, principalmente em escolas do interior e zona rural. As universidades podem contribuir com o desenvolvimento didático/tecnológico dessas escolas. Essa a interação entre o ensino superior e as escolas de ensino básico é necessária e fundamental para a formação acadêmica, social e pessoal do futuro professor, que passaria a ser um componente significativo na inclusão digital, tão cara à educação.

Referências

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ALVES, Alda Judith. O planejamento de pesquisas qualitativas em educação. Cadernos de Pesquisa, São Paulo, v. 77,p. 53-61, maio, 1991.

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