Artesanato Da Palha De Carnaúba – Várzea Queimada Jaicós PI – REDIMENSIONADA

“Artes viva”: ensino e aprendizagem significativos

Abr-Jun-2019
tamires barros veloso

Tamires Barros Veloso

Professora de Artes, Português e Matemática na Escola Municipal Padre David Ângelo Leal na cidade de Jaicós no Piauí. Graduada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Piaui – UESPI e pós-graduanda em Psicopedagogia Clínica e Institucional.

E-mail: tamiresbarros32@gmail.com

INTRODUÇÃO

A arte em seu conceito geral configura-se como uma necessidade de expressão inerente ao ser humano. No entanto, quando se trata de seu ensino nas escolas, assistimos poucas ações no sentido de contribuir ativamente para o desenvolvimento artístico de nossos educandos.

O presente trabalho apresenta a didática como substância importante para o ensino de artes ativo e contextualizado; tem como objetivo geral discutir concepções didáticas na contemporaneidade para um ensino e aprendizagem significativos de artes, e como objetivos específicos relatar as experiências vivenciadas com o projeto “Artes Viva”.

A relação com essa temática se justifica na inquietação diante de uma disciplina de grande importância para o desenvolvimento humano ser considerada como a “prima esquecida” da Educação Básica, no desejo de contribuir com o ensino de artes ativo, que vise a aprendizagem crítica e significativa.

Dessa forma, se Artes é um componente obrigatório, por que enfrenta a problemática de se afirmar na prática como de grande relevância quando comparada às outras disciplinas obrigatórias? Qual seria, então, o papel da didática para intervir e modificar essa realidade? O trabalho com projetos pode ser uma estratégia didática eficiente? Como introduzir o ensino de Artes ativo e que se torne significativo? Nesse panorama de questões, o estudo desenvolvido procura estabelecer um encontro da didática com ensino de artes significativo.

Nesse contexto, o processo metodológico deste trabalho caracteriza-se pela abordagem qualitativa, empregando-se a pesquisa-ação, desenvolvida com base na observação participante no espaço de uma sala do segundo ano do Ensino fundamental de uma escola pública em Jaicós, no estado do Piauí, nas ações do projeto de intervenção “Artes Viva” – estratégia didática desenvolvida para o ensino de artes nessa etapa da Educação Básica.

As ações do projeto caracterizam-se em mensalmente trabalhar de uma a duas manifestações artísticas de forma contextualizada, envolvendo artistas locais e espaços artísticos regionais, efetivando ações de estreita associação da teoria e da prática. Entre as artes apresentadas, destacam-se: as pinturas rupestre (da Serra da Capivara) e a contemporânea; poesia cordel; fotografia (oficina); e o artesanato local. Há outras formas e gêneros que poderiam integrar o projeto no campo das Artes, mas a ideia era de dar mais sentido à função didática, trazendo elementos do cotidiano, com a intenção de aproximar mais os participantes das ações.

A DIDÁTICA E O ENSINO DE ARTES NO BRASIL

A didática enquanto teoria estabeleceu suas principais discussões a partir da “Didática Magna” de Comenius (1966), em que era definida como a arte de ensinar tudo a todos. Essa significação permeia os discursos atuais, de forma que, quando um professor não consegue atingir objetivos satisfatórios com seus educandos, é definido pela concepção do senso comum como alguém que “não tem didática”.

Libâneo (2013, p. 27) destaca que

[o] processo didático efetiva a mediação escolar de objetivos, conteúdos e métodos da matéria de ensino”, é relação entre teoria e prática que se estabelece nas ações do processo de ensino e aprendizagem  a partir de um objeto de ensino. Nesse sentido […] A ela cabe converter objetivos sociopolíticos e pedagógicos em objetivos de ensino, selecionar conteúdos e métodos […], estabelecer os vínculos entre ensino e aprendizagem, tendo em vista o desenvolvimento das capacidades mentais dos alunos […].

Compreende-se, assim, que nenhuma concepção sobre a didática seja neutra, existe uma intencionalidade contextualizada no uso de determinadas técnicas e não outras, levando em consideração também as características do sujeito que busca aprender.

A arte originou-se com a própria espécie humana; o fazer artístico é primitivo e assume diferentes funções a partir dos contextos impressos. O processo artístico da primitividade estabeleceu-se como retrato histórico daquele período, as expressões nas paredes das cavernas era uma necessidade às práticas cotidianas daquela sociedade, “[f]oi com intenção ritualística que surgiram as primeiras pinturas rupestres” (PAULA, 2006, p. 44).

Ao longo do tempo, a arte foi se institucionalizando, encontrando diferentes formas de manifestações, constituindo-se atualmente como um componente obrigatório nos currículos escolares, estabelecido no Art. 29 da lei 13. 415, de 2017, que altera a lei nº 9.394/96 (LDB): “[o] ensino da arte, especialmente em suas expressões regionais, constituirá componente curricular obrigatório da educação básica” (BRASIL, 2017, p. 8). Um ensino que promova suas produções artísticas regionais e locais, apresentando a diversidade de formas e manifestações artísticas existentes na sociedade.

Na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) aprovada também em 2017, essa obrigatoriedade do ensino de arte foi mantida e as unidades temáticas pautadas nas linguagens das Artes Visuais, Dança, Música e o Teatro, incorporando como novidade a seu ensino a categoria Artes integradoras e a classificação de seis dimensões do conhecimento: Criação, Crítica, Fruição, Estesia, Expressão e Reflexão, no desenvolvimento desse componente curricular no Ensino fundamental (BRASIL, 2017).

PROJETO “ARTES VIVA”: ENSINO DE ARTES ATIVO E CONTEXTUALIZADO

Didática significa, de forma geral, a constituição de um conjunto de aspectos necessários ao desenvolvimento do ensino, ao fazer educacional. “Fazer esse” que, durante a história da educação, adquiriu diferentes estilos e métodos de propagação. E a arte educação surge no currículo escolar brasileiro na reforma educacional do ano de 1971, em um contexto de ensino tradicional e técnico que, de alguma forma, permanece impregnado nas ações educacionais do ensino de arte atual.

O Projeto “Artes Viva” surgiu para em contraposição à concepção tradicionalista que vem se propagando ao longo do tempo. Ele consiste em uma estratégia didática utilizada nas aulas de Artes no segundo ano do Ensino Fundamental de uma escola pública piauiense, uma espécie de sequência didática que envolve as diversas manifestações artísticas existentes na sociedade, com intuito de reforçar ações de arte de modo ativo e significativo.

O projeto teve começou apresentando as primeiras manifestações artísticas da humanidade: as pinturas rupestres, tendo como referência o Parque Nacional da Serra da Capivara, que fica localizado no estado do Piauí. Realizou-se uma viagem por essa manifestação artística pré-histórica significativa. Como segunda ação, ainda no campo das artes visuais, apresentou-se por meio de recursos tecnológicos, as principais pinturas e seus artistas da arte Moderna e Contemporânea nacional e internacional, no qual diversas obras foram reproduzidas em novo formato por meio do desenho e da pintura.

Nesse panorama, um poeta local foi convidado a apresentar a arte poética, especificamente a poesia nordestina na tradição dos versos de cordel. Uma jornalista e fotógrafa ministrou a oficina interativa de fotografia. Os alunos tiveram a experiência de aprender sobre fotografia e de contato com o artista in loco.

O artesanato foi trabalhado com as manifestações artísticas desenvolvidas na própria região, destacando a comunidade conhecida popularmente como “Várzea Queimada”, que desenvolve uma diversidade de objetos com a palha de carnaúba. Esses objetos são até comercializados com outros estados e, futuramente, com outros países. A aula de campo deu oportunidade de os alunos entenderem o passo a passo dessa manifestação artística na prática.

Assim, o projeto trouxe grande diversidade de manifestações artísticas existentes na sociedade em que os participantes vivem, sem que eles tivessem consciência da arte envolvida, das abstrações, que provocou a mudança de paradigma no ensino das Artes, bem mais próxima e tangível.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A didática, definida como a “arte de ensinar”, é, portanto, necessária para que o ensino e, consequentemente, a aprendizagem significativa se estabeleçam. O encontro das Artes no contexto da arte educação contribui na construção de um fazer artístico na vida do educando.

As ações desenvolvidas com o projeto “Artes Viva” abriu o espaço para o que a didática busca, de fato, a aprendizagem significativa. A experiência com a diversidade de artes e diferentes artistas promoveu ações de construção de conhecimentos, inspiração e encantamento pelo fazer artístico e deixou como marca nos aprendizes o sentimento da capacidade de produzir arte de diversas formas: versos do cordel, na imagem capturada, na expressão da pintura, na palha de carnaúba, elementos presentes no seu cotidiano.

A estratégia didática de unir teoria e prática em uma ação contextualizada a realidade local mostrou a importância de uma disciplina considerada “perdida” na Educação Básica, frequentemente usada como hora/aula complementar, sem a devida valorização na formação básica do indivíduo.

 

 

REFERÊNCIAS

BRASIL, Ministério da Educação. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n. 9394/1996, alterada pela lei 13. 415 de 2017. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm>. Acesso em: 26 jun. 2018.

BRASIL, Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Educação é a Base. Brasília, 2017. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/download-da-bncc>. Acesso em: 29 mar. 2019.

COMÊNIO, J. A. Didática Magna: tratado da arte universal de ensinar tudo a todos. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1966.

LIBÂNEO, J. C. Didática. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2013.

PAULA, Carlos Alberto de. et al. Arte. 2. ed. Curitiba: SEED-PR, 2006.

Artesanato da palha de carnaúba – Várzea Queimada/Jaicós-PI

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