A garotada ocupando a representação política, por Marize Marques de Freitas

Outubro - 2018

Marize Marques de Freitas

Pedagoga e Ms. em Avaliação de Políticas Públicas – Universidade Federal do Ceará – UFC

O livro A garotada ocupando a representação política organizado por Otávio Henrique Ferreira da Silva, João Paulo Lisbão Nanô e Daniel Borges Rodrigues da Silva (2017), apresenta relatos da experiência da pedagogia de projetos desenvolvida na Escola Municipal Maria das Mercês Aguiar, na cidade de Ibirité, em Minas Gerais. Apresenta-se dividido em quatro seções, intituladas “Pressupostos Políticos e Históricos”, “ O Projeto”, “ A Experiência dos Educadores” e “ A Experiência dos Educandos”, reunindo 24 textos, entre relatos e pesquisas.

Os textos foram produzidos a partir da experiência vivenciada pelos professores e alunos daquela escola com o apoio da gestão escolar, no projeto Câmara Mirim promovido pela Câmara dos Deputados e apresentam caráter de predominante sensibilização democrática face aos acontecimentos político sociais brasileiros.

A temática central do projeto desenvolvido na escola é a educação para a democracia participativa e os textos permitem ao leitor acompanhar cronológica e metodologicamente a sistemática empregada nas atividades desencadeadas na escola e que culminaram com ida ao Congresso Nacional, no Distrito Federal. Da maneira como se encontra estruturada a obra, passamos por uma fundamentação histórica, emancipação do município onde está situada a escola, pós emancipação, caracterização política, o perfil de práticas assistencialistas e populistas, relações clientelistas e patrimonialistas, além de contexto de iniciativas que podem mudar o que já está estabelecido, os “Pressupostos Políticos”. O indivíduo, desde que conquista o sentido de si, único, percebe-se parte de uma família, que está numa comunidade e aos poucos, sente-se parte de um todo orgânico, a sociedade, e esse todo tem suas funcionalidades, seja humana, social, política. A partir de quando se desloca do conforto e proteção do seu lar percebe que suas ações fazem eco na sociedade, seja para a imparcialidade ou para a efetividade. Historicizar o sujeito é inseri-lo em um contexto, criando uma identidade e uma afetividade com seu território, de forma que possa interferir positivamente nele. Nanô,  neste livro, propõe o rompimento destas práticas viciadas através de políticas educacionais, enquanto Daniel Borges, em seu texto, fala das mudanças possíveis em comportamentos arraigados quando se tem conhecimento e compromisso com o povo e suas conquistas, o ‘respeito ao direito do sujeito’ para a autonomia; a obra percorre a aplicação e instrumentalização do projeto em si no capítulo dois, “O Projeto”, desvendando os desafios, a dedicação dos professores, a curiosidade dos alunos, o empenho, numa sequência lógica de começo meio e fim, onde se teoriza, aplica a metodologia e a prática, que incita a reflexão e semeia novas expectativas de atividades e anseios de participação; envereda pelo ‘sentir’ o projeto por parte de seus executores, grupo multidisciplinar de professores que o conduziram sob a batuta do coordenador geral, “A Experiência dos Educadores” no capítulo três, culminando com a aplicação dos conhecimentos recebidos através da formação ao longo de meses, por parte dos alunos, no desempenho de simulação de atividades parlamentares, na Câmara Federal, a “Experiência dos Educandos”, contido no capítulo quatro. Aqui, contemplando a segunda dimensão da educação para a democracia (BENEVIDES, 1996)[i] que é a preparação para a participação ativa, não apenas como cidadão cumpridor de seus direitos e deveres, mas sendo capacitados “para a posição de governante em potencial”.

A experiência do organizador e coordenador do projeto Otávio Silva em contato com o projeto Missão Pedagógica no Parlamento em 2017 claramente o conduz a buscar novas possibilidades de discussão sobre educação e democracia na escola. Desde cedo, as discussões em torno do tema têm se tornado cada vez mais um imperativo, dados os assaltos a democracia e ao Estado de Direito no cenário brasileiro. É mister reacender o desejo por participação legítima, aquela que se destaca pela defesa dos direitos coletivos e não apenas a dos interesses individuais. É nesse processo de ebulição nacional na política que o projeto Câmara Mirim busca lançar as sementes de educação para a democracia, arando os terrenos de onde brotarão boas colheitas.

A obra caracteriza e marca a aplicação do projeto sobre democracia participativa. O Estado, no projeto em questão representado pela escola pública, cumpre seu dever de garantir a educação e o alcance da busca pela liberdade, a dignidade individual e comunitária. A escola, portanto, através de seus gestores e professores, faz crer aos alunos que ainda é possível investir numa outra visão de democracia e nos princípios democráticos, ajudando a calçar o caminho a ser percorrido pelos jovens para o desejo de representar seus pares. A apatia deve ser vencida e a resistência também. O cenário caótico da política representativa leva as novas gerações a desacreditarem na sua eficiência ou, na pior das hipóteses, a apostarem na negação de direitos como saída, como inserção na onda de crise moral. O descrédito nas práticas políticas é explicitado, na obra, nos relatos de alguns dos estudantes. E o professor é peça fundamental nessa mudança de ponto de vista. Aliado a uma gestão escolar participativa, aberta e proativa, formam o conjunto de atores que se fazem presentes de maneira a inserir o corpo discente nas atividades, como parte ativa, não apenas meros receptores de saber, a ’educação bancária’ citada por Paulo Freire, nos idos de 1968[ii]. A monta do projeto é grande e ousada, já que prevê atividades de longo prazo, incluindo discussão sobre as lutas e bandeiras da sociedade civil organizada. A garra e empenho demonstrados pela coordenação do projeto e da gestão escolar na conquista dos professores teve que ser tamanha a ponto de chegar aos alunos com a mesma intensidade. Essa confiança e a dedicação dos professores permeia os relatos. Professores estes que são provocados todos os dias a cederem à pressão da apatia e das adversidades da lida, por aquilo que na política mais se assemelha a um projeto das grandes elites para as camadas mais pobres da população: a manutenção do caos social com vistas a desinformação. A voz reinante entre os depoimentos dos alunos é: eu me surpreendi comigo mesmo. E o desejo parece ser um só: dedicar-se mais à participação política, seja através da busca do conhecimento, seja no engajamento político e cidadão, seja efetivamente na participação alentada desde já no cenário público de sua comunidade, como representante de fato e de direito.  A crença na mudança e dedicação dos professores a uma causa – amparados pela gestão, que para além dos recursos financeiros da escola, dá demonstrações de como harmonizar recursos para a concretização das atividades com efetiva participação – faz toda a diferença no processo das atividades.

“A realidade pode ser mudada, só porque e só na medida em que nós mesmos a produzimos, e na medida em que saibamos que é produzida por nós” (KOSIK, 1976:18 apud LIMA, 2012)[iii]. A frase parece exprimir a renovação do pensamento dos alunos da Escola Municipal Maria das Mercês Aguiar, ao final projeto. Experienciar, como demonstrado no quarto capítulo, revigora a percepção e é a ânima, que move o corpo discente. A verdadeira mudança é o desafio plantado nos estudantes que se veem escritores e atores em todo o processo, segundo seus relatos. Verbos como ‘surpreende”, ‘encanta’, ‘sorri’, ‘discursa’, participa’, ‘anseia’, ‘expressa’, ‘reflete’, ‘entende’, permeia a escrita dos estudantes, no capítulo final. Se por uma via presenciamos em alguns textos o descrédito inicial com as práticas políticas no atual cenário nacional, por outro o livro sugere que fôlego novo foi inspirado e traz-nos a certeza de esperança renovada. O livro coroa o fim ao qual o projeto se destinava, como ensaio e apontamentos para intervenções futuras, tal qual cita Mateus Neves, aluno do 9º ano, sinalizando com ‘uma possível participação para melhorar este país(…)visando não o dinheiro, mas sim o prazer de ver o Brasil sempre evoluindo e os brasileiros felizes”. Oxalá bons ventos soprem. Deleitem-se com a leitura e que a obra sirva de norte para essa nova brisa juvenil.

 

 

REFERÊNCIAS

BENEVIDES, Maria Victoria. Educação para a democracia. In: palestra concurso para professor titular em sociologia da educação na FEUSP, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011

GOMES, Nanci Gameiro de Souza. As dificuldades encontradas pelo orientador educacional no desenvolvimento de sua função. RJ, 2012.

SILVA,  Otavio Henrique Ferreira da; NANÔ, João Paulo Lisbão e SILVA, Daniel  Borges Rodrigues da (Orgs.). A garotada ocupando a representação política – 1. ed. – Ibirité, MG: Escola Cidadã, 2018, v. 1. 147 p.

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